Sínodos e Concílio

Dom Luiz Demétrio Valentini*

Neste mês de outubro começa em Roma mais um sínodo. É a 15ª assembleia geral do sínodo, desde que esta instância da Igreja foi instituída pelo Papa Paulo VI, no final do Concílio Ecumênico Vaticano Segundo, no ano de 1965.

Para compreender sua finalidade e seu alcance, o sínodo precisa ser colocado em referência ao Concílio. Pois na verdade ele foi instituído por Paulo VI em vista do término do Concílio Vaticano II, com a intenção de continuar o processo conciliar. O concílio estava terminando, e Paulo VI queria dotar a Igreja de um instrumento ágil, que permitisse retomar o clima conciliar sem alterar a normalidade da Igreja. Esta a intenção de Paulo VI.

Os estatutos que configuraram esta iniciativa permanecem os mesmos, na sua essência, desde o primeiro sínodo realizado em 1967, pouco tempo depois de concluído o Concílio. Fundamentalmente, a assembleia sinodal é composta por representantes eleitos pelas Conferências Episcopais, podendo o Papa acrescentar outros, através de convites pessoais feitos a bispos ou a peritos.

Para se ter uma ideia, a CNBB tem uma cota de quatro representantes a serem eleitos, dentro de um universo de quatrocentos bispos brasileiros, pois para o sínodo podem também ser eleitos os bispos eméritos. Nestes casos, a representação das grandes conferências fica prejudicada. A Conferência episcopal do Uruguai, por exemplo, com menos de dez dioceses, tem um representante garantido no Sínodo.

Mas o que mais importa num sínodo nem é a representação proporcional dos seus membros.  Ele pretende desencadear um processo participativo que envolva toda a Igreja em torno de um assunto relevante. Desta vez, por exemplo, a incidência da Sagrada Escritura na vida da Igreja, a partir do documento conciliar sobre o mesmo assunto.

Os sínodos têm a ver com a dinâmica conciliar. A Igreja precisa, permanentemente, ir conferindo sua caminhada ao longo da história, a partir dos diferentes lugares onde ela procura cumprir a missão recebida de Cristo. E para isto ela necessita partilhar a diversidade de vivências, que contribuem para perceber melhor as respostas que o Espírito lhe sugere. Se para captar “o que o Espírito quer dizer às Igrejas”, na expressão do Apocalipse, ela se limita a um lugar só, a Igreja acaba empobrecendo suas referências, não dando conta da riqueza do Evangelho, capaz de suscitar respostas adequadas a cada situação diferente que a Igreja vai vivendo.

Foi o que motivou Paulo VI a instituir a atual forma de representação episcopal, concretizada nos sínodos que foram se realizando a partir do último concílio. Ele queria contar, no governo da Igreja, com a ajuda mais direta e mais diversificada do episcopado mundial. Portanto, sínodos para ajudar o Papa a governar a Igreja.

Aí mora o limite maior da atual fórmula de sínodos. Eles não deliberam. Eles só apresentam sugestões ao Papa, em forma de “proposições”, entregues ao Papa no final de cada sínodo, junto com a escolha, por voto secreto, de um “conselho pós-sinodal”, para ajudar a discernir as proposições e transformá-las num documento com gênero literário próprio, identificado como  “exortação pós-sinodal”.

Foram muitas as vozes que sugeriram dar mais consistência aos sínodos, conferindo-lhes a incumbência de tomar decisões estratégicas, junto com o Papa, no momento em que se realiza a assembleia sinodal. Com certeza, os sínodos passariam a ter uma incidência muito maior na Igreja, e desencadeariam um processo participativo muito mais intenso. Eles teriam a missão de captar, de maneira viva e atual, as demandas trazidas pelos representantes eleitos pelas Conferências Episcopais, traduzindo estas demandas em compromissos a serem assumidos por todas as Igrejas, como procurou fazer Aparecida.

O processo conciliar faz parte da dinâmica da Igreja. Ele precisa acontecer em cada Igreja local. Quanto mais ele for acionado, mais a Igreja poderá dar conta dos apelos que a realidade lhe apresenta.

* Bispo emérito de Jales