Um caminho de solidariedade e solidão

Frei Gustavo Medella

Meu tempo, meus interesses, meu grupo de amigos, meu conforto, meu bem-estar, meu lazer. Tudo meu! O sentimento de posse pode levar o ser humano a se encerrar numa verdadeira bolha de ilusões, isolando-se de tudo que possa colocar em risco sua fantasiosa segurança pautada em bens, status, fama e privilégios. Quando o Sr. Egoísmo “toma conta do pedaço”, a primeira a cair fora é uma tal de Dona Empatia. Afundando-se neste lamaçal de vaidades, a pessoa perde toda a referência e passa a ter somente a si mesmo como parâmetro. A dor do outro facilmente se torna motivo de riso ou indiferença. Compromisso social?! Só comigo mesmo, às vezes ficando de fora até meu pai e minha mãe. Gratidão? A quem, se tudo o que tenho consegui com o meu esforço?

Também na vida de fé esta atitude daninha pode ganhar espaço. Neste caso, Deus passa a ser visto como provedor de benesses e agrados e a cruz, marca irrenunciável do seguimento de Cristo, encarada como desgraça que se abate sobre aqueles que não caíram no bem-querer divino. “Problema é deles! Que se lasquem se são vagabundos e azarados, se não souberam se filiar ao Deus da prosperidade e do sucesso!”

Jesus Cristo, no entanto, aponta para uma direção diametralmente oposta para este modo egocêntrico de conceber a vida e a relação com Deus. O caminho do Mestre é o caminho do Servo Sofredor (cf. Is 50,5-9a), que se interessa justamente pelos desafortunados e faz questão de carregar com eles seus sofrimentos, por mais terríveis que pareçam. A fé que Ele ensina e testemunha é sempre ativa e solidária, capaz de compadecer-se com a dor e a carência do outro e colocar à sua disposição tudo o que possui. Este é o Messianismo do Pobre de Nazaré, difícil de ser assimilado e entendido por aqueles que esperavam da parte de Deus uma ação triunfante e arrasadora.

Compreender a proposta de Jesus e buscar encarná-la no dia a dia exige um esforço constante de discernimento. Até São Pedro, discípulo da primeira hora, teve seus escorregões. Ao mesmo tempo que foi capaz de professar sua fé engajada em Jesus, enxergando nele o Messias, o Ungido de Deus, também cedeu à tentação de não compreender que o projeto de salvação assumido pelo Cristo também passava pelo abraço do cruel sofrimento da cruz no mais alto grau de despojamento e maturidade humana. A incompreensão de Pedro e dos contemporâneos de Jesus serviram para mostrar ao Filho de Deus que o caminho da solidariedade por ele escolhido é, muitas vezes, um caminho de solidão.

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