O CarismaNotícias › 13/09/2018

Conformar-se a Cristo, para ser sinal de luz no mundo

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São Paulo (SP) - Na próxima segunda-feira, 17/09, a Família Franciscana celebra a festa da Impressão das Chagas de São Francisco. O Ministro Provincial, Frei Fidêncio Vanboemmel, em entrevista a Frei Gustavo Medella, no Programa Sala Franciscana, fala sobre o significado desta festa para a espiritualidade franciscana e o que a estigmatização de São Francisco nos convida hoje a viver. “Mais do que nunca nós, franciscanos, devemos nos deixar marcar com a estigmatização de São Francisco, para sermos no mundo também o caminho de luz”, afirma o frade.  Acompanhe:

Site Franciscanos: Os biógrafos de São Francisco atestam que o santo recebeu no corpo as feridas de Jesus Cristo na Cruz. Como aconteceu este fato?

Frei Fidêncio: Esse fato nos é narrado por Tomás de Celano, São Boaventura e outras biografias e legendas que contam a história de vida de São Francisco. Todos eles são unânimes em afirmar que Francisco se encontrava no Monte Alverne para fazer uma quaresma em honra a São Miguel, por quem nutria uma grande devoção. O Monte Alverne fica no centro da Itália, lugar que Francisco também ganhou de presente do Conde Orlando Chiusi, de Laverna. É um eremitério, no alto de uma montanha, onde ele normalmente passava dias de quaresma, oração e jejum. No ano de 1224, dois anos antes de sua morte, depois de ter celebrado o mistério do Natal em Greccio, Francisco sobe ao Monte Alverne para fazer a Quaresma de São Miguel. Durante este período, acontecia a festa da Exaltação da Santa Cruz, pela qual Francisco nutria uma profunda devoção e respeito, porque a Cruz sempre lhe representava o amor e a compaixão pelo Cristo Ressuscitado.

Estando compenetrado no mistério da Cruz, Francisco abre as páginas do Evangelho, que fala da Paixão do Senhor e pede, naquele momento, duas graças: a primeira de sentir em seu próprio corpo o amor de Jesus pela humanidade; a segunda: sentir no seu corpo a dor da Paixão, o suplício da Cruz para nossa salvação. Assim, absorto em Deus, mergulhado no mistério de Deus, apareceu o Serafim, o próprio Cristo em forma de anjo e imprimiu no corpo de Francisco os sinais das chagas do próprio Salvador. Receber feridas no corpo é uma experiência dolorosa, mas São Francisco considerou uma graça receber no corpo as feridas do Cristo na Cruz. Por que ele teve esta ousadia, esta lucidez de considerar o recebimento das feridas de Cristo uma verdadeira graça?

Podemos elencar diversas razões para que Francisco alcançasse essa graça, uma graça extraordinária, mas também uma graça dolorosa. Extraordinária porque, desde o início de sua conversão, Francisco experimentou dentro de seu próprio coração uma inquietação profunda, uma dúvida, principalmente quando se tratava de abandonar projetos pessoais, suas realizações humanas para abrir-se à graça de Deus. No testamento que escreveu no final de sua vida, ele diz que essa graça começa a acontecer quando ele soube trocar de valores. O que num primeiro momento parecia doçura – os prazeres do mundo, da carne – de repente se transformou dentro dele numa graça de conversão, para olhar o mundo, a vida, os sofrimentos de outra forma. Então ele diz: “O que antes me parecia amargo, se me converteu em doçura”.

Talvez, a primeira grande graça que deixou uma marca no coração de Francisco foi exatamente o seu encontro com o leproso. Mais do que abraçar um homem leproso, creio que naquele momento, o leproso deixou uma marca, um estigma, uma chaga no coração de Francisco e, assim, ele começou a se apaixonar pelos leprosos, pelo cuidado das pessoas que estavam totalmente excluídas da sociedade.

Outro momento interessante na vida de São Francisco é quando ele ouve a voz do Crucificado, em São Damião: “Francisco, não vê que minha Igreja está em ruínas? Repara-a para mim!” Ruína pode significar desgraça, mas a partir da fala do Crucificado, tornou-se graça e Francisco começou então a restaurar a Igreja de Deus. Mais uma vez, nessa fala do Crucificado, a cruz também ficou marcada em seu coração. Os biógrafos são unânimes em dizer que, desde aquele momento, a Cruz, essa experiência dolorosa, também se impregnou no coração de Francisco.

Assim, ao longo de toda a sua vida, no encontro com os pobres, os sofredores e os sofrimentos de todas as pessoas, as dificuldades internas da vida, dos irmãos, o medo da missão, a postura da Igreja, o ir entre os infiéis e sarracenos, o desejo do martírio; tudo foi uma experiência, de certa forma, dolorosa, mas foi experiência de graça. Por isso, para Francisco, abraçar o Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo é abraçar a dor, a cruz, a própria Paixão do Crucificado. Por isso, Francisco abraça essa realidade da morte, a morte que também muitas vezes pode parecer uma desgraça para todos nós. Francisco vai abraçando todas essas experiências que aparentemente podem ser desgraças, mas ele se deixa marcar por estas experiências profundas da graça de Deus.

Assim, quando ele chega ao Monte Alverne, para conformar-se à morte de Jesus Cristo, Francisco consegue equilibrar a dor e o amor que ele sente no olhar de Jesus. Por isso, São Boaventura chega a dizer: “Você pode agora levantar a bandeira, valente soldado de Cristo”, ou seja, Francisco atingiu o cume da perfeição do Evangelho. A estigmatização é graça, porque ali Francisco alcançou a perfeição do Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Site Franciscanos: O amor de Francisco pelos pobres tem relação com este episódio da estigmatização?

Frei Fidêncio: O amor de Francisco aos leprosos, aos pobres, tem muito a ver com o episódio da estigmatização. São Boaventura, quando começa a narrar a história da estigmatização de São Francisco, diz que o angélico Francisco não se cansava enquanto estava na busca do bem. Ou subia até Deus ou descia até os homens. Assim, ele aprendeu a dividir meticulosamente seu próprio tempo. Chama muito a atenção quando Boaventura diz, dentro do relato da estigmatização, que Francisco sobe a Deus em contemplação, mas desce também até os homens. Quando ele usa esta expressão “descer até os homens”, para mim, é exatamente esse gesto permanente de São Francisco, da sua compaixão com a miséria humana em todos os sentidos.

Ao longo de toda sua vida, são inúmeros os episódios onde a experiência do convívio do pobre de Assis com os pobres de seu tempo são dignos de nota. Cada pobre deixava no coração de Francisco uma marca, uma chaga. Creio que da mesma forma que toda vez que Francisco estendia a sua mão a um pobre para ajudar, para socorrer, este pobre também deixava nas mãos de Francisco a sua marca, como também São Francisco, enquanto perambulava qual peregrino neste mundo, quando ia ao encontro dos pobres, dos necessitados, das pessoas que imploravam auxílio; os seus pés também foram sendo assinalados com as marcas não só da caminhada em si, mas sobretudo marcadas por esse passo que Francisco dava ao encontro do outro.

Se ele, no Alverne, recebeu as chagas no coração, no peito, nas mãos e nos pés, eu creio que essas chagas são sinalizações de toda uma caminhada, um processo. As chagas são marcas do sofrimento, mas também são sinais do amor. Por isso, para além dos pobres e leprosos, Francisco une a criação inteira no cântico de louvor. Por isso, naquele canto ele fala da necessidade do perdão, da reconciliação, da paz, da grandeza da vida, da dura realidade da morte, que pode ser tanto bendita como maldita, conforme ela ocorre na vida das pessoas. Creio que o amor de Francisco aos pobres e leprosos está muito interligado com a estigmatização dele no Monte Alverne.

Site Franciscanos: Quais provocações Francisco das Chagas traz para os franciscanos da atualidade?

Frei Fidêncio: A estigmatização de São Francisco nos provoca e deve provocar, sobretudo em nós, a nostalgia da vivência do santo Evangelho em toda sua radicalidade. As Chagas de São Francisco são resultado de uma dedicação intensa, uma resposta diária àquilo que ele disse ao Evangelho dentro da igreja da Porciúncula: “É isso que eu quero, é isso que eu procuro, é isso que eu desejo fazer de todo coração”. Isto é, viver uma vida em conformidade com o Cristo enquanto discípulos. Também nós devemos renovar a cada dia este apelo, essa vontade de querer viver o Evangelho na sua radicalidade para atingir o cume da perfeição evangélica voltando ao pensamento de São Boaventura.

A primeira provocação para nós hoje é a vivência do Evangelho na sua radicalidade. Em segundo lugar, diria que outra grande provocação nasce a partir do momento que São Boaventura descreve a descida de Francisco no Monte Alverne. É muito interessante, pois lá Francisco é apresentado como um sinal de luz, de purificação e união. Na verdade, São Boaventura está falando dos três grandes caminhos da espiritualidade: a via iluminativa, purificativa e unitiva. Deixar-se chagar por Jesus Cristo, também nos nossos tempos, é muito importante para nós, frades, para todos os franciscanos e todos os cristãos, para que nós, a exemplo de São Francisco, sejamos um caminho de purificação. O mundo tem necessidade de cura. Cura das feridas, das chagas da maldade por conta do orgulho, ganância, prepotência, autossuficiência. Que nós sejamos também como Francisco, caminhos de purificação, para que as pessoas ao nosso redor possam sentir essa unção de Deus no próprio coração.

Também nós devemos ser como São Francisco: um caminho de iluminação. No Monte Alverne, depois que Francisco desceu de lá, nunca mais caiu granizo, embora continue caindo granizo e neve, mas o sentido simbólico diz que Francisco, ao descer do Monte, se torna claridade. Nós, hoje, mais do que nunca, precisamos também traçar ao mundo um caminho de maior clareza. Nós vivemos em meio a tanta obscuridade, a tantas inverdades, a tantas coisas que cegam a alma, petrificam o coração e nos tornam indiferentes aos grandes valores daquilo que Deus viu que era bom. Mais do que nunca nós, franciscanos, devemos nos deixar marcar com a estigmatização de São Francisco, para sermos no mundo também o caminho de luz. O outro é o caminho da união, cujo amor aquece e unifica os corações, sobretudo nesse mundo de hoje, tão dividido e machucado pelas injustiças sociais, por essa globalização da indiferença, bem como o frívolo mercantilismo doentio que só favorece os pares. Diante dessas barreiras, para acolher imigrantes, como nós vivenciamos há poucos dias na fronteira entre a Venezuela e o Brasil, quando de uma forma tão maldosa, tão bruta e violenta, nós vimos com os nossos próprios olhos como falta o caminho da unidade. Creio que deixar-se estigmatizar por Francisco é ser como Francisco, sinal de união, paz, reconciliação.

Site Franciscanos:O que significa o fato ter recebido os santos estigmas enquanto vivia num momento de intensa oração e solidão?

Frei Fidêncio: É significativo porque, em primeiro lugar, sabemos que São Francisco, com muita frequência se recolhia em lugares solitários para fazer as quaresmas. E essas quaresmas tinham sempre uma motivação, no final da quaresma acontecia a grande festa. Ele se recolhia na solidão, na oração, para sentir dentro do seu corpo a fome espiritual daquela grande festa que ele iria celebrar. Por isso ele jejuava, comia pouco durante a quaresma, mas sobretudo meditava muito a Palavra de Deus, os Evangelhos e procurava cada vez mais, na solidão, nos lugares ermos e na oração, conformar-se com o Santo Evangelho. Portanto, fazer uma quaresma para as grandes festas significa preparar-se para o dia da festa, fazer com que o corpo experimente no jejum e na fome o desejo de celebrar o banquete da festa. Essa é uma motivação muito bonita.

Em segundo lugar, creio que Francisco escolhia esses momentos de oração e solidão também para imitar o próprio Cristo, mestre e Senhor, que se recolhia em lugares ermos e solitários, para rezar, estar a sós com Deus, principalmente nos momentos de grandes decisões. Isso é importante. A humanidade de hoje toma tantas decisões erradas porque não se recolhe na oração. Nós, homens de hoje, somos muito precipitados. Creio que Francisco, ao subir ao Monte Alverne ou quando se recolhia na oração e solidão, voltava com decisões claras e nítidas. Para Francisco, a motivação é procurar no recolhimento, solidão e oração o desejo da conformidade com Jesus Cristo e o Santo Evangelho. Recolher-se na solidão é ter essa capacidade de, na oração e solidão, fazer uma síntese interior dos grandes valores que tocam a nossa vida e que precisamos fazer quase diariamente ou em momentos fortes do nosso viver. O próprio Francisco afirma que todos nós corremos o risco de permitir que a poeira do mundo cole aos nossos pés.

Esse é o grande risco: que o pó do mundo obscureça o nosso coração, torne-nos insensíveis. Por isso, recolher-se na oração e na solidão é purificar-se dessa poeira da mundanidade, para permitir que somente permaneçam em nossas vidas as verdadeiras e as legítimas marcas do Senhor Jesus, que Francisco depois de se purificar tanto em vida, desceu do Monte com as legítimas marcas.