Sabedoria divina, sabedoria humana

Frei Clarêncio Neotti

Não dá de seguir Jesus, tendo como critério de orientação a sabedoria humana (que manda satisfazer os instintos, usar de tudo, armazenar, ambicionar, ser autossuficiente, silenciar a oposição, eliminar os contrários, receber o máximo com o mínimo de esforço). Ao mesmo tempo que Jesus começa a viagem decisiva a Jerusalém, começa a revelar aos Apóstolos as qualidades do verdadeiro discípulo, qualidades diferentes das que exigiam de seus seguidores os mestres da lei e da espiritual idade judaica. Inclusive o discípulo deverá morrer com o mestre. Pode não ser uma morte física, mas certamente será uma morte aos próprios interesses, em benefício dos interesses de Deus.

Na primeira parte do Evangelho, Marcos anotou as diferentes reações dos ouvintes de Jesus: admiravam-se (5,20), ficavam estupefatos (1,27), maravilhavam-se (1,22; 6,2; 7,37), impressionavam-se extraordinariamente (2,12; 5,42). Muitos o tinham em conta de profeta, isto é, de alguém que proclamava a presença de Deus e exigia das criaturas um comportamento correspondente a essa presença divina. Imaginavam-no santo. Isso fica claro no trecho que lemos hoje, quando o povo o compara a Elias, considerado o mais santo dos profetas, ou a João Batista, recém-assassinado e de quem todos guardavam santa memória.

Ao longo da viagem a Jerusalém, Jesus procurará mostrar aos Apóstolos que ele é mais que Elias e Moisés. O episódio da Transfiguração ocorre imediatamente após o trecho de hoje, e mostra, sem deixar dúvidas, a superioridade de Jesus sobre Elias e Moisés. Ao mesmo tempo, Jesus ensinará aos discípulos que não é suficiente impressionar-se com ele e admirar seus milagres. É preciso assumir sua maneira de pensar, de comportar-se, de fazer a vontade do Pai até a morte e morte de Cruz (Fl 2,8).

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