Homem especialmente marcado pela cruz

Não é de se admirar que Francisco seja visto e considerado como um homem marcado pela cruz de maneira especial, tanto por seus companheiros como pelos biógrafos, por autores de hinos, sequências e antífonas que se cantam em sua honra, a começar pelo Ofício ritmado de Frei Juliano de Espira.

Assim o descreve Frei Tomás de Celano (3Cel 2): “O homem novo, Francisco, tomou-se famoso por um novo e estupendo milagre: por um singular privilégio jamais concedido nos séculos anteriores, ele foi marcado ou ornado com os sagrados estigmas ‘tornando-se semelhante em seu corpo mortal ao do Crucificado’ … O homem de Deus tinha pela cruz do Senhor um amor apaixonado, quer em público. quer em particular. Apenas começara a servir sob o estandarte do crucificado e já a cruz gravava em sua· vida as marcas de seu mistério…”

Como homem da cruz viam-no também Frei Silvestre e Frei Monaldo (3Cel 3): “De fato, Frei Silvestre, um de seus primeiros irmãos, e homem de grande virtude, viu sair da boca de Francisco uma cruz dourada, que abrangia, na extensão de seus braços, todo o universo” (cf. LTC 31). “Este fato nos é atestado por escrito num relato digno de fé. E tal sucedeu durante um sermão de Santo Antônio que estava pregando sobre o tema da cruz” (cf. 2Cel 109).

Assim o viu Frei Pacífico(3 Cel 3): Frei Pacífico, homem de Deus, agraciado por visões do céu, viu com os olhos de seu corpo um grande Tau, de várias cores, que brilhava com brilho de ouro sobre a fronte de seu bem-aventurado pai” (cf. 2Cel 106).

O hábito também deveria ser conforme sua vocação: “O hábito era para ele uma veste adequada uma vez que ela correspondia à sua sede de pobreza; e o santo nos dá desta forma uma certeza de que o mistério da cruz encontra nele sua plena realização: assim como a sua alma tinha revestido o Senhor Crucificado, da mesma forma seu corpo revestia a cruz…”

A cruz como símbolo da evangelização do mundo

A cruz que Frei Silvestre viu sair da boca de Francisco “abraçava admiravelmente com seus braços todo o universo”. Realmente o santo meditava constantemente no fato de Jesus ter sido crucificado por todos os homens e muito lamentava ver que o amor não era conhecido por todos e por todos amado. E com o sinal-da-cruz enviou os seus frades por todas as partes a pregar o Evangelho a todas as nações, nas quatro direções dos braços da cruz!

O mistério da cruz, vivido intensamente por Francisco, tornou-se a força da pregação de seus filhos e fonte de renovação para a Igreja. Merece menção o capítulo 16 dos Fioretti que não é apenas uma bela página literária, mas encerra em suas linhas um profundo mistério. Eis a conclusão do texto: “Finalmente, terminada a pregação (aos passarinhos), São Francisco fez sobre eles o sinal-da-cruz e deu-lhes licença de partir; e então todas aquelas aves em bando se levantaram no ar com maravilhosos cantos; e depois, seguindo a cruz que São Francisco fizera, dividiram-se em quatro grupos: um voou para o oriente e outro para o ocidente, o terceiro para o meio-dia, o quarto para o aquilão, e cada bando cantava maravilhosamente; significando que como por São Francisco, arauto da cruz de Cristo, lhes fora pregado e sobre eles feito o sinal-da- cruz, segundo o qual se dividiram, cantando pelas quatro partes do mundo; assim a pregação da cruz de Cristo, renovada por São Francisco, devia ser levada por ele e por seus irmãos a todo o mundo: os frades, como os pássaros, nada de próprio possuindo neste mundo, confiam a vida unicamente à providência de Deus”.

Dicionário Franciscano: Ignacio Omaechevarría