Os Franciscanos e a Via-sacra

Frei Celso Márcio Teixeira
Revista Franciscana

A devoção da Via-sacra ou Via crucis tem suas origens bem dentro da espiritualidade franciscana. É de todos conhecida a intensidade com que Francisco meditava sobre a humanidade de Cristo: encarnação, natal, paixão e, dentro do mistério kenótico do Filho de Deus, a Eucaristia, intimamente ligada à encarnação. Tudo isto, evidentemente, sem anular a divindade de Cristo.

Tomás de Celano, ao narrar o encontro de Francisco com o crucifixo de São Damião, exprime-se com uma frase de intenso significado: “Desde então, grava-se na sua santa alma a compaixão do Crucificado … , e no coração dele são impressos mais profundamente os estigmas da venerável paixão, embora ainda não na carne” [1].

É esta compaixão que leva Francisco a chorar constantemente a paixão do Senhor. “A partir daquela hora – continua o biógrafo – a alma dele se derreteu. Desde então, não consegue conter o pranto, chora também em alta voz a paixão de Cristo … Enche de gemidos os caminhos, não admite qualquer consolação, ao recordar-se das chagas de Cristo” [2].

Digno de menção é o episódio narrado pela Legenda dos Três Companheiros: “Uma vez, caminhava solitário perto de Santa Maria da Porciúncula, chorando e lamentando em alta voz. Um homem espiritual, ouvindo-o, julgava que ele sofresse alguma enfermidade ou dor e, movido de compaixão para com ele, interrogou-o por que chorava. E ele disse: ‘Choro a paixão de meu Senhor, pelo qual eu não deveria envergonhar-me de ir chorando em alta voz por todo o mundo’. O outro também começou a chorar com ele em alta voz” [3].

Neste contexto de intensa compaixão se compreende a redação do Oficio da Paixão, meditação que Francisco fazia dos salmos que ele rezava na ótica da Paixão do Senhor. Em outras palavras: Francisco lia certos versículos do saltério sempre ligados ao mistério da paixão de Cristo. E deste conjunto de versículos de diferentes salmos ele compôs o Oficio da Paixão, que ele rezava sempre como oficio votivo. E esta compaixão vai conduzir Francisco a sofrer com o Cristo sofredor, pois que o identificará com Ele na cruz, imprimindo nele os estigmas no Monte Alverne.

O amor de Francisco pela humanidade de Cristo leva-o consequentemente ao amor pela Terra Santa. Os historiadores discutem se Francisco realmente foi ou não à Terra Santa. Mas a presença franciscana na Terra Santa é de antiga data. Quando em 1217 a Ordem foi estruturada em províncias, Francisco mandou frades para a Província da Síria, isto é, com acesso à Terra Santa. Frei Elias foi o primeiro Provincial da Síria.

Depois da morte de Francisco, a presença dos frades menores na Terra Santa foi constante. E a alma dos frades menores ficou marcada também pela compaixão para com os sofrimentos do Senhor, pois esta faz parte de sua espiritualidade.

Deste modo, a difusão da devoção da Via-sacra só podia ter tido a colaboração dos franciscanos. Isto se deu a partir dos séculos XIV e XV. Os frades menores, que desde 1342 tinham a guarda ou custódia da Terra Santa, começaram a percorrer com os peregrinos a via dolorosa de Cristo, que começava diante da casa de Pilatos até à sepultura de Jesus. Os lugares de parada (estações) para meditação sobre um determinado sofrimento de Cristo eram marcados com uma pedra, depois com pequenas cruzes” [4]. Estas estações foram desde cedo visitadas pelos peregrinos [5] Inicialmente, as meditações eram baseadas nos textos do Evangelho. Posteriormente, foram-se acrescentando alguns elementos colhidos da tradição, como, por exemplo, a cena da presença consoladora de Verônica.

Mais tarde, esta devoção foi transplantada pelos franciscanos para a Europa. Assim, os peregrinos que voltavam da Palestina, desejando recordar os lugares santos visitados em Jerusalém, começaram a recorrer a esta devoção. E a devoção foi-se espalhando sempre mais, mesmo para aqueles que nunca tinham visitado a Terra Santa. São Leonardo de Porto Maurício (1676-1751) foi um grande propagador da Via-sacra, difundindo numerosos quadros. Preparou o jubileu de 1750, quando erigiu [6] a Via-sacra do Coliseu, declarando sagrado aquele lugar santificado pelo sangue dos mártires. Mas já a partir de Leão X, com a concessão de indulgências, a Via-sacra encontrou expansão geral.

A Via-sacra convida-nos a percorrer o mesmo caminho de Cristo [7] (seguimento de Cristo mesmo na cruz), mostrando-nos nossa fundamental condição de pessoas ‘in via’ [8]. Isto nos convoca a meditar sobre a nossa condição de peregrinos e forasteiros neste mundo [9]

[1] 2Cel 10, 8.
[2] 2Cel 11, 4.6-7.
[3] LTC 14, 4-7; cf. 2Cel 11,8.
[4] Até os dias de hoje, os quadros da Via-sacra têm uma pequena cruz. Elas constituem o elemento mais importante da Via-sacra, não tanto os quadros. Estes apenas ajudam o fiel na visualização do mistério que ele medita.
[5] As estações no início variavam de 19 a 57. Já no século XVI, começaram a fixar-se em 14 estações. A partir das Advertências de Clemente XII (1731), confirmadas por Bento XIV (1742), o número ficou estabelecido em 14 estações.
[6] Até pouco tempo atrás, os franciscanos tinham o privilégio na ereção das Vias-sacras, isto é, somente os frades menores podiam benzer os quadros e cruzes da Via-sacra.
[7] Cf. Adm 6,2
[8] A expressão ‘in via’ (em caminho) designa a condição atual do homem em marcha para a bem-aventurança. Opõe-se a ‘in patria’ (no céu). O homem que está ‘in via’ é designado como ‘viator’, itinerante, peregrino; cf. O. de la Brosse, A. M. Henry, Ph. Roillard, Diccionario del Cristianismo, Barcelona, Biblioteca Herder, 1986, verbete: Via, p. 792-793.
[9] Cf. RB 6; 3; Test 24.