O CarismaNotícias › 12/08/2018

Festa das Irmãs Clarissas da Gávea é mais longa

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Moacir Beggo

Rio de Janeiro (RJ) – A festa de Santa Clara de Assis terminou, para as Irmãs Clarissas da Gávea, só neste domingo, 12 de agosto, com o encerramento do Ano Jubilar dos 90 anos de fundação do Mosteiro da Gávea (RJ). Este momento de Ação de Graças foi celebrado solenemente durante a Eucaristia presidida pelo Ministro Provincial da Imaculada Conceição, Frei Fidêncio Vanboemmel, e concelebrado pelo guardião do Convento Santo Antônio, Frei José Pereira. Além das Irmãs da Fraternidade local, estavam presentes religiosos e religiosas, franciscanos seculares e fiéis que todos os domingos participam da Missa das 11 horas.

No dia 25 de setembro de 1928, por iniciativa da Província Franciscana da Imaculada Conceição, após uma longa e feliz viagem de navio, aportaram no Rio de Janeiro as oito irmãs – vindas de Düsseldorf, Alemanha – escolhidas para restaurar a Ordem de Santa Clara no Brasil com a fundação do Mosteiro Nossa Senhora dos Anjos da Porciúncula. “É com muita alegria, e em nome de toda a Província Franciscana da Imaculada Conceição, que estamos aqui participando da Celebração de encerramento do ano jubilar desta presença contemplativa aqui na cidade do Rio de Janeiro, particularmente na Gávea. Nos alegramos com as irmãs, nos alegramos com toda a Igreja, nos alegramos porque temos a graça de celebrar Santa Clara de Assis, que tem muito a dizer a todos nós e à Igreja nesse tempo do Papa Francisco. Ela que, mais do que ninguém, foi a continuadora dos ideais de São Francisco depois de sua morte”, disse Frei Fidêncio.

O Ministro Provincial, sempre muito à vontade para falar da espiritualidade franciscana, encantou as Clarissas com sua reflexão. A partir da leitura do profeta Oseias, quando Deus atrai para o deserto o povo de Israel para lhe falar ao coração e celebrar com ele os esponsais místicos, o celebrante destacou a similaridade com a espiritualidade de Santa Clara. “Sabemos bem que Clara abandona a segurança da casa paterna, a segurança da vida nobre que ela vivia, para viver num pequeno mosteiro, numa casa fora dos muros da proteção de uma cidade, numa casa à beira da estrada. Clara abandona os esponsais terrenos, o matrimônio prometido, para iniciar, a partir da conversão, um ritual novo de esponsais, um ritual novo de matrimônio. E o lugar de deserto para ela é o pequeno mosteiro de São Damião. É lá neste deserto, com as irmãs, que Clara faz a experiência do ouvir Deus falar ao coração”, disse.

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Mas, segundo o Ministro Provincial, nem tudo foi simples. “Para poder clarear essa fala de Deus foi necessário, em primeiro lugar, a renúncia de tudo, o abandono de toda segurança humana, para se colocar por inteira nas mãos da Divina Providência e aos cuidados do Senhor”, explicou. Só assim, no dia a dia da consagração, elas realizaram o ritual místico do enamoramento com o Cristo pobre, humilde e crucificado.

“Então, para serem merecedoras desse esposo, para ouvirem Deus falar ao coração, cada uma deveria se colocar, a cada dia, diante do mistério de Cristo e deixar-se encantar, deixar-se enamorar, deixar-se apaixonar por aquelas virtudes que Clara acha fundamentais para ser esposa de fato”, ensinou o celebrante.

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PERMANECER NO AMOR DE CRISTO

Do evangelista São João, que nos convida a permanecermos no amor de Cristo, continuou a sua reflexão dizendo que Clara fazia isso no cotidiano do mosteiro de São Damião. “Permanecer em Cristo é deixar-se perpassar por este amor de Jesus Cristo. Permanecer em Cristo é fazer com que a fraternidade, a comunidade, esteja unida continuamente nesse tronco da videira. Porque desse tronco brota a seiva, brota a mística, brota o amor, brota a pobreza, brota a caridade, brota a humildade que, vividos fraternalmente, geram frutos”, ressaltou, citando a Carta do Ministro Geral, Frei Michael Perry, escrita para o Dia de Santa Clara de Assis, quando ele fala que permanecer em Cristo é criar esse discernimento para chegar a um caminho de purificação (leia a carta aqui). E ele fala de três purificações: a purificação do olhar, do coração e da vontade.

“Vivemos em um mundo de muita artificialidade, de muitas imagens e, muitas vezes, de falsas imagens. Clara diz para as irmãs: ‘Olhe bem dentro desse Espelho, que é Jesus Cristo'”, disse Frei Fidêncio, acrescentando que Clara e as irmãs seguiam a vontade que estava na Palavra de Deus.

Referindo-se à leitura que São Paulo aos Coríntios (Deus fez brilhar a luz em nossos corações, para que se conheça em todo o seu esplendor a glória de Deus, que se reflete no rosto de Cristo), lembrou que a fragilidade nossa não impede a ação da graça de Deus. “Clara tem consciência disso a tal ponto que ela chega a escrever para Santa Inês de Praga dizendo: Nossa carne não é carne de bronze; a nossa força não é de uma pedra, ao contrário, somos frágeis, propensos à toda fraqueza do corpo. Mas assim mesmo Deus acredita, Deus confia”, situou.

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Frei Fidêncio terminou sua homilia tendo como base a Exortação Apostólica “Gaudete et Exsultate, sobre a chamada à santidade no mundo atual”, destacando a citação do Papa: a santidade é feita da abertura habitual à transcendência. “Na vida contemplativa, mesmo na nossa vida apostólica, nossa vida diária, se quisermos ser santos, precisamos aprender com São Francisco e Santa Clara o que significa essa abertura do coração à transcendência de Deus. E mais ainda: a santidade deve ser buscada, procurada todos os dias, naquilo que nós fazemos com simplicidade”, frisou.

“Então, hoje mais do que nunca, precisamos ser santos. Por isso estamos aqui esta manhã celebrando Santa Clara, não apenas para recordar os seus gestos heroicos de um passado, mas queremos celebrar Santa Clara e trazer para a nossa história, para o nosso presente e, sobretudo, ver em Santa Clara a nossa própria possibilidade de santificação”, incentivou o Ministro Provincial.

“Santidade, diz o Papa, é dar sentido, é dar importância aos pequenos gestos do cotidiano da vida do mosteiro, aos pequenos gestos do cotidiano da vida familiar. Hoje nós lembramos o Dia dos Pais – parabéns aos pais aqui presentes -, e como é bonito a gente ver a santidade de um pai de família quando ele vive a sua vocação nos pequenos gestos da grandeza de sua missão! O Papa dá muita importância a isso. Quando lemos a história de Santa Clara, percebemos o quanto ela valoriza os pequenos gestos, os pequenos sinais”, observou, lamentando que no mundo de hoje perdemos o foco no essencial: “Estamos conectados com um mundo de coisas e vivemos distraídos. Mas Clara lembra: não perca de vista aquilo que é o fundamental, aquilo que é o essencial. Contemple apaixonadamente, diz ela”, completou o celebrante.

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Irmã Maria Helena da Santa Cruz (à direita), eleita Abadessa este ano.

OS FRUTOS DA GÁVEA

Foi a partir deste mosteiro que brotaram cinco novas fundações monásticas que, com suas filiais e ramificações, somam hoje 20 claustros das Damas Pobres de São Damião no Brasil. A Porciúncula dos Anjos da Gávea, em 90 anos, viu seus ramos crescerem e dar frutos.

Neste espaço sagrado da Rua Jequitibá moram 26 irmãs, entre elas a nova Abadessa Ir. Maria Helena da Santa Cruz, cujo nome civil é Martina Kobata. Nasceu no município de Arapongas, Paraná, de pais japoneses e católicos praticantes. Segunda de 11 irmãos, cresceu em um ambiente alegre e cristão até ingressar, no dia 19 de março de 1963, aos 18 anos, na Porciúncula de Nossa Senhora dos Anjos, tendo como mestra Madre Maria Pacífica de Jesus. No dia 8 de maio de 1968, fez a profissão solene. Foi Vigária Conventual e Mestra de Noviças e Junioristas por vários triênios até ser eleita Abadessa neste ano, no dia 5 de maio.

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