Clarissas hoje

tique-20A proximidade da festa de Santa Clara sempre é ocasião de reflexão, balanço e retomada de fôlego. Soa dentro de nós um apelo da vida. Escutar suas palpitações. Sentir-se membro de uma sinfonia que tem como Maestro o Altíssimo e Bom Senhor que se digna nos chamar.

tique-20Não pensamos em superestruturas. Frades, franciscanos seculares e clarissas participamos de um mesmo sopro. Sentimos todos, já passados  quase vinte anos de um novo milênio,  um misto de alegria e de preocupação. O mundo mudou.  A vida mudou e continua mudando. Em todos os campos sentimos uma espécie de vertigem. Em princípio não queremos e não podemos condenar o novo. Isso não exclui nossa perplexidade.  Para onde vamos? O que nos faz viver? O que franciscanos e clarissas temos a dizer?

tique-20Insiro neste contexto um pensamento de Georges Bernanos. Viver em profundidade. Fazer emergir o que anda escondido dentro de nós. Não selar o fim antes de ter explorado ao máximo suas riquezas. “A maioria de entre nós não compromete na vida mais do que uma pequena parte, uma parte ridiculamente diminuta de sua existência.  As pessoas vivem na superfície de si mesmas e como o solo humano é tão rico que esta fina camada superficial é suficiente para conseguir uma fraca colheita que dá a impressão de ter sido um grande resultado. Um santo não vive de juros sobre juros, mas engaja a totalidade de sua existência”.

tique-20Há insegurança e vulnerabilidade no ar. Uma cultura da evasão, do escapismo impede as pessoas de refletirem em profundidade. Há essa cultura do ter, da posse de coisas, pessoas, terrenos tudo para uso pessoal. Cultura do saber, do estar informado, da sede por notícias, fatos, acontecimentos. Nada chegando a atingir o centro de cada um. 

tique-20Buscar o novo… que vem do sopro do Espírito. Nada melhor do que estas palavras do Papa Francisco: “Para vinho novo, odres novos. A novidade do Evangelho. Que nos traz o Evangelho? Alegria e novidade.  Para a novidade, novidade; para vinho novo, odres novos. E não tenhais medo de mudar as coisas segundo a lei do Evangelho. Por isso, a Igreja pede-nos a todos nós algumas mudanças. Pede-nos que ponhamos de parte as estruturas caducas: não prestam! E que tomemos odres novos, os do Evangelho. O Evangelho é novidade! O Evangelho é festa!  E só se pode viver plenamente o Evangelho  com um coração alegre e com um coração renovado. Demos espaço à lei das bem-aventuranças.

tique-20Uma palavra do ex-Ministro Geral OFM, Giacomo Bini: “Eu creio que a casa a reparar hoje é a “nossa casa”.  Não penso em construções de cimento, mas na formação do coração, uma formação para a serenidade, para a consciência de que pertencemos a Deus, onde os meus desejos são os desejos de Deus, onde minha vida cotidiana seja uma vida unificada em Deus. “Vai, Francisco!” Hoje podemos dizer a cada um: vá, Maria,  Francisco, Antônio, repara  a  minha casa que, como vê, está em ruína”.

tique-20Não errar o endereço da casa do Senhor, da casa do Altíssimo. Nada de caricaturas de Deus. Nada de um Deus não se onde. Planando no ar. Nada de rotina, de mesmice, mas uma luta jubilosa de viver no Senhor. O endereço do Senhor é nosso ser mais íntimo.

tique-20Cuidado para não ficarmos derramados nas coisas, comendo pela beirada o que sobra para nós da pujante sociedade de consumo. Nada de seres superficiais, epidérmicos, dados às aparências, ao externo. Temos que sentir saudades das grutas.

tique-20Uns e outros somos convidados a tecer uma deliciosa convivência com o criado: as flores, os pássaros, as cachoeiras, o vento suave, as crianças, os velhos encantadores. Experimentar bem praticamente que pertencemos ao um todo. Somos  irmãos, de verdade, irmãos universais.

tique-20Sim, seres de profundidade que são dados à leitura e ao estudo, que frequentam as plagas do silêncio de ruídos e do silêncio de si mesmos. Sempre de novo: para além das aparências.

tique-20Seres de escuta, que fazem o delicado exercício da escuta. Escuta de suas vozes interiores, escuta das palavras dos outros,  escuta-leitura das alegrias e dores estampadas nos semblantes. E assim fazer a experiência da fraternidade que vai nos libertado do inferno de nós mesmos.

tique-20Clarissas, mulheres que vivem em clausura, mas que na força de suas vidas vão além dos muros de seus mosteiros e tentam também, dentro de suas possibilidades testemunhar que o Reino já começou a existir e que seu estilo de vida pretende ser sinal desse mundo novo.

tique-20Respirar atenções mútuas. Criar laços. Partilhar. Lavar os pés umas das outras, o outro de perto e o outro de longe. Irmãos e irmãs que vetaram irrevogavelmente os projetos do mundo apoiados nas leis do mercado e do consumo. Os espaços clarianos têm outro tônus.

E muito mais que não cabe nestas linhas…

Frei Almir Guimarães