Vida CristãArtigos › 23/07/2018

Evangelho da Prosperidade: perigoso e diferente

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“A parte do ensaio que causará mais mal-estar em certos círculos é o vínculo entre o “sonho americano” e o evangelho da prosperidade”, escreve Michael Sean Winters, jornalista, em artigo publicado por National Catholic Reporter, 18-07-2018. A tradução é de Victor D. Thiesen, publicado no Instituto Humanitas Unisinos – IHU.

Acompanhe:

O Pe. Antonio Spadaro S.J. e o Rev. Marcelo Figueroa estão outra vez sob holofotes. No ano passado, publicaram o provocante ensaio chamado “Evangelical Fundamentalism and Catholic Integralism: A Surprising Ecumenism” (Fundamentalismo Evangélico e Integralismo Católico: Um Surpreendente Ecumenismo, em português) que causou desconforto nos religiosos americanos por nos forçar a enfrentar a redução que se tornou dominante em nossa cultura: da religião à ética e daí para a política. Agora, com a publicação de “The Prosperity Gospel: Dangerous and Different”* (Evangelho da Prosperidade: Perigoso e Diferente, em português), eles estão felizmente causando problemas outra vez.

No texto criticam “o risco desta forma de antropocentrismo religioso que coloca os seres humanos e seu bem-estar no centro, que transforma Deus em uma potência a nosso serviço, a Igreja em um supermercado da fé e a religião num fenômeno utilitário que é eminentemente sensacionalista e pragmático”. Na verdade, é quase um erro de categoria chamar isto de teologia. É uma projeção dos nossos desejos mais grosseiros e materialistas à divindade.

Uma das razões para Spadaro e Figueroa irritarem muitos da direita é que eles evitam a falsa polidez que infelizmente caracteriza muitos escritos da esquerda católica. Então, quando eles catalogam as muitas e variadas fontes do evangelho da prosperidade e chegam a Norman Vincent Peale, escrevem que ele “ganhou uma enorme repercussão com seus livros cujos títulos falam por si: The Power of Positive Thinking (O Poder do Pensamento Positivo), You Can If You Think You Can (Você Pode se Pensar que Pode), A Guide to Confident Living (Guia para uma Vida Confiante). Peale foi um pregador de sucesso e conseguiu misturar marketing e pregação”. De fato, os títulos falam por si próprios.

Curiosamente, quando citam o presidente Donald Trump e como a sua invocação do “sonho americano” se encaixa com o evangelho da prosperidade de maneira significativa, os autores não percebem que a família Trump começou a frequentar a Marble Collegiate Church de Peale na década de 1950, precisamente porque eles se sentiram tocados por sua pregação. Peale presidiu a cerimônia do primeiro casamento de Trump e seu sucessor fez as honras no segundo. Tanto hoje como naquela época, faço a mesma análise que Adlai Stevenson fez sobre Rev. Peale depois que o pregador advertiu contra o voto em John Kennedy por causa de seu catolicismo. “Falando como cristão”, disse Stevenson, “acho [São] Paulo atrativo e Peale apelativo” [Paul appealing e Peale appaling, nde].

Os autores, no entanto, fizeram um trabalho admirável trazendo observações de outros teólogos sobre o assunto. Minha favorita vem de James Goff em Christianity Today (Cristianismo hoje) que diz que o evangelho da prosperidade reduz Deus Pai a “uma espécie de ‘mordomo cósmico’ que responde às necessidades e desejos de suas criaturas.”

Entre as referências teológicas do evangelho da prosperidade está um consequencialismo enraizado em um entendimento pelagianista da salvação. O texto que ancora essa linha de pensamento é Gálatas 6, 7: “Não se iludam: com Deus não se brinca. Pois cada um colherá o que tiver semeado”, mas, como Spadaro e Figueroa apontam, se os pregadores da prosperidade e seus rebanhos continuassem lendo, encontrariam isto — no versículo seguinte — em Gálatas: “Quem semeia na própria carne, da carne colherá destruição. Quem semeia no Espírito, do Espírito colherá vida eterna”.

Pregadores da prosperidade também gostam de citar Deuteronômio 28, 1-14, que lista as bênçãos que Deus concederá a quem seguir os seus mandamentos. Este é o terreno onde nasce a compreensão que o evangelho da prosperidade tem da Aliança. Curiosamente, Joseph Ratzinger, mais tarde Papa Bento XVI, para quem o conceito de aliança também foi central, da mesma forma se dirigiu ao capítulo 28 de Deuteronômio como um texto crítico para sua teologia. Mas Ratzinger se concentrou nos versos que seguem, em que Deus detalha as maldições que cairão sobre seu povo por sua desobediência. Ratzinger também trouxe imensa sofisticação teológica para sua leitura destas escrituras hebraicas.

A parte do ensaio que causará mais mal-estar em certos círculos é o vínculo entre o “sonho americano” e o evangelho da prosperidade, uma ligação que os autores retratam como essencial mas de nenhum modo predeterminada (talvez a palavra certa para esse contexto seja predestinada). É difícil imaginar o evangelho da prosperidade tendo início em outro país. Os autores não zombam do desejo de uma vida melhor que trouxe milhões de pessoas à América. A Doutrina Social Católica prega a crença num bom salário, bem como o direito das pessoas a migrarem quando a violência, incluindo a violência da pobreza, os obriga a deixar sua terra natal. Além disso, a aspiração a “vir para a América” era sempre sobre “a ânsia de respirar liberdade” e não apenas sobre os salários; havia um componente espiritual, um compromisso com a dignidade humana que não se somava simplesmente à esperança de uma vida decente, mas de que a preocupação com uma vida decente fazia parte.

Mas os autores reconhecem que o materialismo cria seus próprios apetites, e a cobiça da cultura americana é um fato sobre o qual é construída a ideologia do neoliberalismo. Além disso, os autores observam a visão da América como uma nação providencial que está a um pequeno passo de ver a providência divina como a obtenção de uma conta bancária maior. Na verdade, você poderia dizer que os pregadores da prosperidade são aqueles que zombam dos anseios espirituais que também faziam parte do sonho americano com seu reducionismo materialista e seu senso de que não basta fazer parte da classe trabalhadora ganhando um bom salário. Não obstante, prevejo que os críticos de Spadaro, e eles são muitos, vão exagerar o que ele e Figueroa disserem, para pintá-los como antiamericanos, o que não são.

Outro ponto de controvérsia certamente surgirá desta frase: “em algumas sociedades onde a meritocracia tem coincidido com o nível socioeconômico do indivíduo, este ‘evangelho’ que enfatiza a fé como o ‘mérito’ de ascender de classe social, é injusto e radicalmente antievangélico”. Aqui, eles fornecem uma referência religiosa para o argumento apresentado por Matthew Stewart sobre as pretensões meritocráticas da nova aristocracia americana.

Outro ponto de discórdia vai ser o argumento sobre a utilidade política que este falso evangelho tem para os plutocratas. “Então, o risco é de que os pobres que são fascinados por este pseudoevangelho permaneçam deslumbrados no vazio sociopolítico que permite facilmente que outras forças moldem seu mundo, tornando-os inócuos e indefesos”, escrevem. “O evangelho da prosperidade não é uma causa de mudança real, aspecto fundamental que é inato à doutrina social da Igreja”. Lembro-me da observação de Chesterton sobre o catolicismo se tornando “uma coisa nova e perigosa”, enquanto outras ideologias ficam obsoletas e caducam.

Enquanto Max Weber falou da relação entre o protestantismo e o capitalismo num contexto de austeridade evangélica, os teólogos do evangelho da prosperidade espalham a ideia de riquezas em relação proporcional à fé pessoal. Sem sentido social e enquadrada dentro de uma experiência de benefício individual, essa concepção faz consciente ou inconscientemente uma releitura extremista das teologias calvinistas de predestinação. A soteriologia de alguma forma está ancorada no tempo e espaço e é esvaziada de sua visão escatológica tradicional.

Parte do que une o diagnóstico weberiano e o evangelho da prosperidade é a negação completamente protestante da mediação da graça através de relacionamentos, ou seja, através da Igreja e, de fato, da criação em si. Um dos desenvolvimentos mais perigosos do catolicismo nos Estados Unidos é o grau a que a nossa espiritualidade tem de se tornar ‘protestantizada’, no qual a relação do fiel individual com Jesus é exaltada em detrimento de uma mais tradicional espiritualidade eclesial e sacramental católica.

Espero também que os autores um dia ampliem seu olhar e acusem os pregadores do evangelho da prosperidade de pelagianismo. “A visão de fé oferecida pelo evangelho da prosperidade está em clara contradição com o conceito de uma humanidade marcada pelo pecado com a necessidade de salvação escatológica, ligada a Jesus Cristo como Salvador e não ao sucesso de suas próprias obras”, escrevem. Infelizmente, o mesmo poderia ser dito de muitos escritores liberais católicos.

Spadaro e Figueroa estão fazendo um grande serviço à Igreja nos Estados Unidos. Às vezes precisamos de observadores externos para apontar coisas que estão muito longe para notarmos, ou para ver as coisas de um ponto de vista que é fechado para aqueles que estão diariamente no meio das realidades socioculturais que são analisadas. Em um momento em que muitos comentários da esquerda Católica são maçantes e previsíveis, os autores nos provocam. Que comece o debate.

*Para ler o artigo de Spadaro e Figueroa em inglês, italiano e espanhol.