Estatuto geral dos missionários

Frei Almir Guimarães

Não levarão sequer surrão, ao estilo dos filósofos cínicos, que levavam pendurada ao ombro uma bolsa onde guardavam as esmolas para assegurar-se o futuro. A obsessão pela segurança não é boa. A partir da tranquilidade do próprio bem-estar não é fácil criar um espaço de vida digna para todos ( José Antonio Pagola)

Envio, enviar, evangelizar, Igreja em saída…  A Igreja não existe para si. Os seus membros estão sempre em movimento. Movimento físico e movimento interior. O Senhor envia os Doze. Amós, na primeira leitura, é convidado a profetizar: “Vai profetizar para Israel, meu povo”.  Ir…

Os que são tocados pelo ardor e pelo fogo da pessoa do Cristo vivo sabem que precisam ir… Não podem se contentar em levar uma vida  serena e tranquila. Por seu exemplo e por sua fala saem…

Vejamos alguns dos elementos desse anunciar a Boa Nova:

>> Há a convicção e consciência de um chamamento misterioso que atinge a medula de nossa vida. Ai de mim se não evangelizar, se não passar adiante o fogo que me incendeia. O chamamento se faz no coração da vida. Amós diz: “O Senhor chamou-me quando eu tangia o rebanho e o Senhor me disse: Vai profetizar para Israel meu povo”. Hoje, ele chama pais e mães, médicos e carteiros, sadios e doentes. Para atingir as pessoas com seu doido amor o Senhor precisa de embaixadores.

>> Não se trata de encher a cabeça das pessoas de doutrina, de regras, de leis, entorpece-los com ritos estridentes, mas de cavar uma brecha no interior das pessoas que permita iluminar a ida de todos os dias. Quase bastaria ser de Cristo.

>> Testemunho: vidas que se tornaram diferentes, padres de verdade padres, casais que sejam casais, pessoas que gostam de estar com os outros, gente limpidamente transparente.

>> Nossas paróquias e comunidades não se bastam: a missa, a devoção, os encontros entre amigos… Os enviados querem quebrar a dureza dos corações que se fecham ao amor e se tornam trapos humanos. Saem no ninho quente de seus movimentos e comunidades aquecidas.

>> Estar perto das pessoas lá onde elas vivem: nas suas casas, no seu local de trabalho, nas ruas, nas praças, nos meios de comunicação…. fica sempre o desafio do como chegar…

>> Habituar-se a ouvir as pessoas, ter a capacidade de olhar atentamente os que estão à nossa volta. Deixar que as pessoas se expressem. Os que são enviados, respeitando a liberdade, haverão de questionar certo estilo de vida… sem ares de superioridade.

>> “Na verdade, os valores que Jesus propõe como capazes de levar o ser humano ao máximo de desenvolvimento não deixam de ser, à primeira vista, desconcertantes: o perdão frente à violência, partilhar em vez de acumular, cooperar em vez de competir, ser austeros e não consumistas, amar sem esperar retribuição, dar a vida e não querer aproveitá-la ao máximo guardando-a para si mesmo” (Pedro José Gomez Serrano).

>> Os que vão pelo caminho não levam dinheiro, não usam meios de comunicação sofisticados e requintados. São pessoas que se apoiam num cajado para espantar os animais e não levam mala com muitas peças de troca. Ir…ir e saber que nesse ir o enviado conta com a força na sua fraqueza. O ir dos pais que buscam os filhos… o ir dos catequistas, o ir dos agentes da pastoral carcerária.. Uma presença modesta.

>> Aceitar a hospedagem sem sofisticação. Nada exigir. Estar contente de ter um cantinho para dormir, um prato para comer e a acolhida de corações que não sabem o que fazer para tornar nossa permanência agradável.

>> A mensagem anunciada é a paz, plenitude dos bens, paz que nasce de corações desarmados, de corações que buscam o perdão do irmão e de Deus, paz de pessoas perdoadas e são propagandistas do perdão/paz.

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