A voz deste Espírito/Espinho

Frei Gustavo Medella

Um dos números mais engraçados dos palhaços no circo é quando um deles, portando um alfinete, espeta o traseiro do outro que, sentado na cadeira, levanta com o susto. A espetada informa ao que estava sentado que é hora de levantar, que ali não dá para continuar.

Na primeira leitura deste 14º Domingo do Tempo Comum (Ez 2,2-5), o Profeta Ezequiel fala de um espírito que entra nele para colocá-lo de pé. É o Espírito do Senhor, impelindo-o à missão de profetizar, investindo-o da coragem necessária para cumprir a tarefa a ele confiada. Na segunda leitura (2Cor 12,7-10), São Paulo descreve um espinho espetado em sua carne para que a grandeza das manifestações que recebeu não o tornem uma pessoa soberba.

Tanto no caso do Profeta como do Apóstolo, o Espírito que põe de pé e o espinho espetado na carne fazem lembrar a imagem do alfinete do palhaço. Ezequiel não poderia se acomodar no momento em que a profecia se fazia urgente para mudar a postura e atitude de um povo que estava no caminho da perdição. São Paulo, ele mesmo reconhece, precisava vencer a tentação da soberba e da autossuficiência, descobrindo em sua fraqueza a força que vem de Deus.

No Evangelho (Mc 6,1-6), quem precisava ser espetado eram os conterrâneos e contemporâneos de Jesus. Estavam alheios e desconfiados da ação de Deus na história deles. Desta desconfiança brotavam as manifestações de despeito em relação à sabedoria e à autoridade de Jesus. No fundo, traziam consigo o chamado “complexo de vira-latas” que nasce no coração de um povo quando este deixa de se amar e, com a “baixa” na autoestima, passa a ser o primeiro a olhar para si mesmo com preconceito e desprezo.

Na Igreja da atualidade, o Papa Francisco tem sido a voz deste Espírito/Espinho que promove a desinstalação a fim de que a grande família dos batizados se lance no mundo e coloque-se a serviço especialmente daqueles que mais precisam. O “repouso no Espírito” é bom, mas desde que garanta a força para a profecia e a missão. Levantar-se do comodismo é tarefa inadiável para uma Igreja que deseja ser “samaritana”, para uma comunidade que tem como objetivo atualizar as práticas e os ensinamentos de Cristo para os dias de hoje. Sem medo, deixemo-nos inspirar/espetar pelo Senhor.

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