Novo encontro vai celebrar legado de Frei Harada

Frei Augusto Luiz Gabriel

Rondinha (PR) – Uma oração junto ao túmulo de Frei Hermógenes Harada, no cemitério interno do Convento São Boaventura, em Rondinha,  marcou ontem (03/07) o encerramento do Encontro Celebrativo de 10 anos da morte deste frade e a certeza que a segunda edição vai acontecer no ano que vem, já que este grande mestre da Filosofia e frade franciscano desta Província da Imaculada faleceu  em 21 de maio de 2009.

O dia começou com a Celebração Eucarística, às 7 horas, na capela interna onde residem os frades de Profissão Temporária e os formadores do tempo de Filosofia. Frei Aloísio de Oliveira, Ministro Provincial dos Frades Menores Conventuais foi o presidente da Santa Missa. Dom João Mamede Filho, da Diocese de Umuarama (PR), Frei Dorvalino Fassini, da Província São Francisco de Assis (RS) e Frei Levi Jones Botke, da Congregação dos Frades Menores Missionários, foram os concelebrantes. Neste dia, a Igreja celebrou São Tomé, apóstolo e pescador quando Jesus o encontrou e o admitiu entres seus discípulos.

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“A atividade reflexiva de Frei Hermógenes Harada” foi o tema que deu início às meditações conduzidas pelo professor Marcos Aurélio Fernandes. Para isso, ele usou o texto “Crise e Deserto”, de autoria de Frei Harada e de Emmanuel Carneiro Leão, publicados na Revista Filosófica São Boaventura, em 2010.

Segundo ele, a palavra crise está relacionada com a crise da ética. “Nós vivemos hoje não apenas uma crise ética entre outras, mas a crise da própria ética no seu todo. Ética remete a Ethos (Morada). Não é apenas uma questão de regras, padrões, modelos, mudanças de valores, mas a questão é mais profunda. Ela é a própria subtração do ethos”, explicou Marcos. Para esse momento de partilha, o professor selecionou temas que apresentam a travessia da crise e do deserto, e não se preocupou em oferecer aos participantes respostas prontas sobre o assunto, muito menos textos de ordem cronológica.

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Professor Marcos Aurélio Fernandes

Para Marcos, o encontro em homenagem a Frei Hermógenes faz vir à memória tudo o que foi vivido junto a ele e com ele. “Ao mesmo tempo nos é dado o desafio de olhar para o futuro e fazer este passado frutificar no presente e no futuro”, refletiu. Segundo ele, o tema da crise e do deserto foi proposto para o Encontro justamente porque o passado não foi apenas uma coisa que passou e que não tem retorno, mas que tendo sido, se recolhe, “e nesse recolhimento nos precede no futuro”, disse.

“Em 1988, estudei aqui neste Convento e lembro-me das primeiras aulas do estudo de filosofia de um seminário que tivemos com o Harada. Temos anotações até hoje. Como foi impactante as primeiras impressões! Já conhecia alguns textos dele antes de entrar na Ordem porque alguns amigos haviam partilhado comigo. Em um momento de dificuldade no começo do ano, certo dia decidi falar com o Hermógenes e, no meio da conversa, ele me disse: ‘Nós filósofos…’ estranhei essa expressão e ele repetiu ‘nós filósofos’… Assim falava ele para nos sentirmos irmanados na Filosofia. Trago esta partilha como uma recordação e homenagem a Frei Hermógenes, um grande pensador, cujo pensamento tem muito o que ser descoberto e pensado”, acredita o professor. Após a leitura corrida do texto, os participantes também tiraram suas dúvidas e deram suas contribuições na palestra.

À tarde, Ênio Paulo Giachini, editor da Revista Filosófica São Boaventura e também grande admirador de Frei Harada, apresentou aos participantes o professor Gilvan  Fogel, que é docente da Universidade Federal do Rio de Janeiro e também membro do Conselho editorial da coleção Pensamento Humano, da Editora Vozes de Petrópolis (RJ). Atua principalmente na área de Filosofia Antiga. “Antes de mais nada quero agradecer muito ao convite e à hospitalidade. É sempre uma satisfação, é a mesma satisfação de participar de qualquer coisa que seja uma lembrança em memória do Harada”, disse Gilvan emocionado. “Se  aprendi alguma coisa em Filosofia, realmente foi com o Harada. Com ele aprendi a aprender”, revelou.

Gilvan retomou alguns pontos a partir daquilo que foi destacado durante a manhã, principalmente em relação ao tema do da crise e do deserto. Segundo ele, quando Harada fala de uma crise de valores, está falando de uma crise real. “Ele fala na verdade da crise do fundamento, ou fundo de estabelecimento desses valores”, refletiu o filósofo.

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Professor Gilvan Fogel

Segundo ele, o mundo em que o homem habita está em crise. Quando a crise é real, quando realmente é crise, tem um lado catártico. “A vida realmente em crise é como que uma vida num instante de um terremoto, ou seja, quando nada, absolutamente nada está firme em que se possa colocar os pés”, exemplificou o professor.

Após as reflexões, discussões e contribuições acerca do tema, no cemitério interno do Convento, onde estão os restos mortais de Frei Hermógenes, foi realizado um momento celebrativo. Segundo a comissão será realizado o segundo encontro ainda sem data definida.

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“ELE ESTÁ VIVO ENTRE NÓS”

Segundo Frei Guido Moacir Scheidt, para que este Encontro Celebrativo acontecesse foi criada uma comissão.  Desde então, ela organizou um programa de encontros e partilhas dos frades, religiosos e leigos que conheceram Frei Hermógenes, através de aulas e palestras. “A repercussão e aproveitamento do encontro foi muito proveitosa, causando gratidão e alegria pela oportunidade de relembrar o pensamento e a riqueza de seu legado na formação inicial e permanente dos religiosos e leigos que o conheceram. Nossa gratidão pelo evento realizado”, agradeceu Frei Guido.

Para a Irmã Ananias de Oliveira, o convite para participar do Encontro Celebrativo foi um presente para ela. “Por ter conhecido e bebido na fonte da sabedoria de Frei Harada, desde minha iniciação nas Irmãs Franciscanas de Bonlanden foi dom de pura graça divina. A partilha neste encontro reavivou o esforço de retomar com vigor a busca do sentido da vida, o trabalho de encontrar a Deus humanado”, animou-se.

Irmã Luci Fontenelle, das Irmãs Missionárias da Imaculada Conceição, disse que os participantes deste encontro puderam celebrar a preciosa existência de Frei Harada: “Ele está vivo entre nós, através da herança inestimável que ele nos deixou. Ele falou-nos do seguimento, a exemplo de São Francisco, e nos incentivou a abraçarmos a Cruz de Jesus Cristo, inserida no tecido de nossas vidas”.

O LEGADO DE FREI HARADA

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Em 2014 foi criado o site oficial de Frei Harada, a pedido de Frei Guido, presidente do Grupo Bom Jesus daquele tempo. No site está disponível um rico acervo em textos, fotos e áudios de palestras e conferências de Frei Harada. Frei Hermógenes Harada foi um inovador da filosofia no Brasil. Oriundo da tradição budista, que conhecia em profundidade e formado por, Heinrich Rombach, um dos grandes mestres do pensamento filosófico-fenomenológico, Harada soube, com raro êxito, realizar o diálogo de integração e inovação entre o pensamento ocidental e oriental, entre filosofia e existência contemporânea, entre cristianismo e mundo técnico-científico, numa proposta, ao mesmo tempo, ontológica como pedagógica. No rigor do trabalho filosófico e na despretensão de um sempre principiante, inovou a atitude mais provocante e universal da filosofia: a de preparar um questionamento de tal maneira amplo, profundo e originário de tudo, que se inicia na singularidade de cada homem, e se enraíza na complexa estruturação do mundo em que somos. Acesse: http://www.freiharada.com.br/

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