O mundo novo de Jesus é como um grão de mostarda

Frei Almir Guimarães

Desafios sobre desafios. Terrorismo, anarquia, drogas, cristianismo nem sempre límpido, indiferença, busca das coisas para si. Os cristãos sabem que precisam salgar, iluminar e fermentar. Quem sabe estejamos pensando em ações grandiloquentes, feitos de massa, sei lá. Talvez baste que sejam humanos, simplesmente humanos e quando ele vê nossos modestos empenhos vai fecundar nossa ação.

Dietrich Bonhëffer, pastor e grande pensador luterano que foi executado em campo de concentração na Alemanha, na 2ª Guerra Mundial, escreveu: “O cristianismo prega o valor infinito do que aparentemente não tem valor a infinita falta de valor do que aparente ser muito valioso”.

Em nossos temos vivemos a era do espetáculo. Pessoas e coisas, eventos e acontecimentos são vistos, analisados, apreciados, ridicularizados. Corpos expostos nas redes sociais como uma grande feira… Uma sociedade do espetáculo, da busca das coisas grandiosas. Determinadas reuniões de pessoas ditas religiosas constituem espetáculo de cura, de gritos, de berros, de frenesi…

As pessoas são como atores que representam num palco ou numa tela, vivem para mostrar-se para fora, não têm uma pousada ou um piso interior. Nada há de oculto e o que se mostra no exterior está doente de superficialidade. Vivemos uma cultura voltada para a imagem pública. Espetáculo…

O mundo novo, o Reino, é feito de uma semeadura do bem, da verdade, da justiça. O homem sai de manhã, molha a terra, lança a semente, volta para casa e enquanto descansa e dorme a semente vai produzindo primeiro a planta e depois os frutos. “Jesus fala de uma semeadura misteriosa da Palavra de Deus no coração humano. Pode parecer que existem pessoas em cujo interior ninguém pode semear hoje semente alguma: as pessoas já não escutam os pregadores; as novas gerações não creem em tradições. No entanto, Deus continua semeando nas consciências inquietude, esperança e desejos de vida mais digna” (Pagola). Os que evangelizam, os que procuram dar testemunho de vida sabem que podem dormir porque Deus vai agir.

Coisas pequenas que são grandes. Grão de mostarda, mínimo, quase não se vê a olho nu. Mas com o tempo de Deus ele se torna quase uma árvore e as aves dos céus ai fazem seus ninhos. Tudo começa muito modestamente, mas depois com a ação de Deus torna-se grande.

“Talvez precisemos aprender novamente a valorizar as coisas pequenas e os pequenos gestos. Não nos sentimos chamados a ser heróis, nem mártires a cada dia, mas todos somos convidados a viver pondo um pouco de dignidade em cada canto de nosso pequeno mundo. Um gesto amigável para quem vive desconcertado, um sorriso acolhedor a quem está só, um sinal de proximidade a quem começa a desesperar, um raio de pequena alegria num coração agoniado… Não são coisas grandiosas. São pequenas sementes do Reino de Deus que podemos semear numa sociedade complicada e triste, que esqueceu o encanto das coisas simples e boas” (Pagola, Marcos, p. 102).

Coisas simples de todos os dias: um banho dado num avô velho, ranzinza e teimoso; presença discreta à mesa de uma sogra que não nos ama; passeios e mais passeios com os filhos pelos prados e jardins para que sintam que são amados; uma tarde descontraída em torno a um bolo de chocolate e uma xícara de café com leite.

Terminemos com uma observação sobre o final da vida de Dietrich Bonhöffer. Não se encontra a Deus onde decidimos encontrá-lo, mas lá onde ele deseja ser encontrado. A insidiosa perseguição a que se via submetido ia exigindo do pastor luterano uma vida cristã cada vez mais escondida. Deus já não estava na Universidade onde ele havia dado passos brilhantes, mas numa vida cristã escondida, cercado dos que estavam preparando e projetando sua morte.

O Reino de Deus é feito de coisas pequenas…

Prece

Reina em mim a escuridão,
mas em ti está a luz.
Estou só,
mas tu não me abandonas.
Estou desanimado,
mas em ti está a ajuda.
Estou intranquilo,
mas em ti está a paz.
A amargura me domina,
mas em ti está a paciência.
Não compreendemos teus caminhos,
mas Tu sabes o caminho para mim.

Dietrich Bonhöeffer

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