Frei Alvaci visita missão no Sudão do Sul

Érika Augusto

São Paulo (SP) - Antes de viajar para o Quênia, onde participa do Conselho Plenário da Ordem (CPO), Frei Alvaci Mendes da Luz, que é reitor do Santuário São Francisco, em São Paulo (SP), aproveitou sua primeira visita ao continente africano para visitar a missão dos Frades Menores no Sudão do Sul, país que tornou-se independente do Sudão em 2011 e desde 2013 vive uma guerra civil, num conflito interno entre duas etnias: dinka e nuer.

Os frades que vivem no país administram a Paróquia Santíssima Trindade, na capital, Juba. A paróquia possui 6 comunidades, algumas a 4 horas de distância da capital. Na fraternidade vivem 5 frades, o guardião, Frei Frederico Gandolfi, da Itália, 2 frades da Polônia, 1 frade de Irlanda e o brasileiro Frei Leonardo Pinto dos Santos, de 35 anos, que pertence à Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil.

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Junto ao Ministro Geral, Frei Michael Perry e outros dois frades, Frei Alvaci conheceu um pouco da realidade do país, que definiu como “pesada demais”, por conta do conflito, da fome e da guerra. Ele relata que sequer na capital há luz elétrica, asfalto, água encanada ou tratamento de esgoto. “Pela capital dá pra ter ideia de como vive o país. A capital tem o básico, algum comércio, mas pouca coisa. Não existe perspectiva de futuro. Se vive para o hoje, se vive para conseguir a comida para aquele dia. No entanto, a população segue sua vida com o mínimo necessário. Há orfanatos, pessoas pedindo o mínimo, muita miséria, miséria absoluta”, descreve o frade.

Frei Alvaci relata que, desde a 2ª Guerra Mundial, o Sudão vive um clima de instabilidade, por diversos fatores. Em 2011, um referendo foi feito e 99% da população aprovou a divisão do país em relação ao Sudão. É um país de maioria cristã, que se divide entre anglicanos e católicos. A maioria da população é anglicana, seguida dos muçulmanos. Os católicos ocupam o terceiro lugar.

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Frei Alvaci com Francisco Lofu, um órfão que vive nos arredores do Convento dos frades.

Por causa da guerra civil, mais de 1 milhão e 700 mil pessoas estão refugiadas. Segundo a Agência da ONU para os Refugiados (Acnur), o Sudão do Sul protagoniza a maior crise de refugiados do continente africano e a terceira maior do mundo, perdendo apenas para a Síria e o Afeganistão. Em Juba está localizado um dos maiores campos de refugiados do mundo, que acolhe 900 mil refugiados do próprio país. A etnia dinka, que está no poder e corresponde a 15% da população, persegue a etnia nuer, que corresponde a 10%, e acaba fugindo do país ou se refugiando. Centenas de crimes contra os Direitos Humanos foram relatados no Sudão do Sul, por parte das duas etnias. Mulheres mortas e estupradas, castrações, mortes violentas e assassinatos de crianças.

Apesar da situação, Frei Alvaci conta que a paróquia mantida pelos frades tem uma vida pastoral muito intensa, com 2 corais, grupo de coroinhas, catequese, Conselho Pastoral, além de reforço escolar, oficina de agricultura, entre outros. “Não tem como fazer esta experiência de vir à África e de estar em um país em guerra sem ficar comovido, sem ficar sensibilizado. Pra mim é a primeira experiência na África, eu sei que há muitos países neste continente com situações extremamente contrastantes, como por exemplo a África do Sul, mas outros tantos, principalmente nesta região, Somália, Etiópia, Quênia, vivem uma série de conflitos, são países muito pobres”, relata.

O frade afirma que, vendo a realidade do Sudão do Sul, é possível ter um olhar diferente do que se vive no Brasil, por exemplo. Apesar da falta da esperança, da desigualdade social, da pobreza e do clima de instabilidade política, os brasileiros têm recursos materiais e naturais e um Governo a quem recorrer. “Aqui não há a quem reclamar”, compara.

“A realidade do Sudão me impressionou muito. Pra quem vem à África pela primeira vez e passa por esta experiência, é chocante”, relata.

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O carioca Frei Leonardo Pinto dos Santos, de 35 anos, é um dos frades que compõem a fraternidade da missão no país.

Experiência compartilhada nas redes sociais

Em seu perfil no Facebook, Frei Alvaci compartilhou uma das experiências em Juba:

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Fomos convidados a visitar o orfanato Santa Clara, mantido pelos frades há dois anos, depois de uma série de ataques às crianças que vivem pelas ruas de Juba. É importante saber que aqui as crianças podem ser abandonadas quando a mãe é escolhida por outro homem, que dependendo da situação financeira, pode ter duas ou mais mulheres. Mulheres e crianças não “valem nada”, não somam, não contam. A sensação ao entrar num lugar desses é de impotência, pequenez, fragilidade… Confesso que me deu vontade de chorar várias vezes.

O mundo esquece da África, deste povo, destas dores. Sei que em nosso país temos muitas dificuldades tão grandes quanto estas, não cabe a mim comparar sofrimentos porque eles são únicos e pessoais. Mas o que se vê aqui é fome, esquecimento, miséria.

No meio da visita, nos trazem uma garrafinha de água mineral, o máximo a se oferecer aos visitantes. Deu vontade de oferecer para aquelas crianças, mas seria uma desfeita de minha parte.

No canto da sala, uma TV espera o dia em que a casa tenha energia elétrica para que eles possam assistir ao jogo de futebol ou jogar vídeo-game, me diz o pequeno Angelo, que fala um inglês perfeito e que no meio da conversa me conta toda a história de São José, terceiro nome que ele carrega!

As palavras não traduzem a realidade. Ficam as perguntas:

Por que tamanha desigualdade e tanto sofrimento? O que fazer para mudar? Como ser semente na terra, como ser sal que dá sabor?

O urso foi um presente deixado na visita. Um pouco de alegria, talvez!