Papa Francisco felicita “Pai da Teologia da Libertação” pelo aniversário de 90 anos

O Papa Francisco escreveu uma carta ao teólogo peruano Gustavo Gutiérrez, fundador da Teologia da Libertação, parabenizando-o pelo seu aniversário de 90 anos neste dia 8 de junho! E agradeceu o seu serviço à Igreja e o seu amor aos pobres, encorajando a seguir adiante.

Veja a mensagem:

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 Estimado irmão:

Por ocasião do seu 90º aniversário, estou escrevendo para parabenizá-lo e assegurá-lo de minha oração neste momento significativo de sua vida.

“Uno-me à sua ação de graças a Deus, e agradeço-lhe pela sua contribuição à Igreja e à humanidade através do seu serviço teológico e o seu amor preferencial pelos pobres e descartados da sociedade”.  Obrigado por todos os seus esforços e pela sua maneira de interpretar a consciência de cada um, para que ninguém seja indiferente ao drama da pobreza e da exclusão.

“Com esses sentimentos  encorajo você a continuar a sua oração e o seu serviço aos outros, oferecendo o testemunho da alegria do Evangelho. E por favor, peço que reze por mim”.

E, por favor, peço-lhe que reze por mim.

Que Jesus te abençoe e que a Virgem Maria te cuide!

Fraternalmente

FRANCISCO

Papa Francisco recebeu Padre Gutierrez no Vaticano em 14 de setembro de 2013. Outro encontro entre Bergoglio e o padre dominicano foi em 22 de novembro de 2014, também no Vaticano, por ocasião da audiência aos missionários italianos que participaram do IV Encontro Missionária Nacional em Sacrofano (Roma), no qual Gutierrez foi um dos oradores.

A HOMENAGEM DE LEONARDO BOFF A GUTIÉRREZ

Amigo de muitos anos, em muitos trabalhos, o teólogo brasileiro Leonardo Boff também escreveu para Gutiérrez no dia de Corpus Christi e, ontem, postou a seguinte mensagem:

No dia 6 de junho em Lima será celebrado em Lima, no Peru, os 90 anos de Gustavo Gutiérrez, o primeiro a dar forma sistemática à Teologia da Libertação em 1971. É um descendente de indígenas. Até os 17 anos ficou em cadeira de rodas por causa da poliomielite, depois foi operado, e hoje possui uma perna bem mais curta que a outra. Vive com um pé no meios dos mais pobres e outro pé na reflexão teológica. Faz jus a uma homenagem que vem do mundo inteiro. Amigo de muitos anos, temos trabalhado junto muitas vezes. Talvez, o melhor dele seja a sua profunda espiritualidade, de onde nasce seu engajamento para com aqueles que morrem antes do tempo e sua fecunda teologia.

ÍNTEGRA DA CARTA 

Caro amigo e companheiro nas tribulações e nas alegrias, Gustavo Gutiérrez.

Quando chegar aos seus 90 anos, quero antes de mais nada agradecer a Deus que nos deu a sua existência e o seu serviço aos pobres, à Igreja e até à Humanidade.

Juntos, o Espírito nos permitiu articular o discurso pertinente da teologia com o universo dos pobres e excluídos de nosso Continente. Desse encontro nasceu uma espiritualidade dos olhos abertos e das mãos operativas. Pudemos participar dos dois mundos: o conhecimento teológico mais lúcido e a sabedoria dos humildes da Terra, nos quais nos encontramos e continuamos a encontrar o Cristo crucificado que quer ressuscitar. Você foi o primeiro a inaugurar este kairós de pensamento teológico e da prática que vem sob o nome de Teologia da Libertação.

O que você escreveu são joias do espírito que honram a inteligência da fé e magnificam a eminente dignidade das crianças e filhas da pobreza.

Por sua causa, a humanidade pode se orgulhar do fato de ter encontrado um filho que amou a vida das vítimas e se colocou a serviço daqueles que têm menos vida.

Eu sei que, nesta altura da vida, você se lembra dos últimos dias, mas tem os olhos voltados para a eternidade.

Receba, querido amigo, de seu amigo e companheiro nas tribulações e muito mais nas alegrias, nosso abraço fraterno e os melhores votos de seu aniversário, pelos seus 90 anos de vida, com nossas orações diante do Senhor. Eu faço isso em nome de tantos amigos e amigas seus e meus no Brasil que sempre acompanhamos você e aprendemos muito com você.

Leonardo Boff, teólogo peregrino.

 Petrópolis, 31 de maio, festa de Corpus Christi.

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UMA VIDA CONSAGRADA AO REENCONTRO DE DEUS E DOS POBRES

Ele é um dos teólogos mais importantes do século XX. O dominicano peruano explica por que consagrou sua vida ao reencontro de Deus e dos pobres.

Ele nasceu em Lima, no Peru. Com apenas 12, por causa de uma osteomielite, ficou preso à cama durante vários anos. “Não havia antibióticos. Eu era aluno dos Irmãos Maristas. Tive que abandonar a escola”. Estudava em casa, jogava xadrez, lia. “Meu pai era um grande leitor”, lembra. “Seguramente, ele me influenciou. Dele também herdei o senso de humor, que ele sempre mostrava, apesar das nossas dificuldades”.

Aos 15 anos, descobriu Pascal, que o marcou permanentemente. E, pouco tempo depois, a História de Cristo, de Giovanni Papini, que o tocou profundamente. Interessou-se também por filosofia e psicologia através dos escritos de Karl Jaspers e de Honorio Delgado. O desejo de se tornar padre, que ele tivera no início da doença, o deixara. No entanto, entrou aos 14 anos na Ordem Terceira Franciscana. “A pobreza já estava presente na minha vida de filho de família modesta, marginalizado pela doença, e nas minhas escolhas”, observa.

Aos 18 anos, pôde finalmente ir para a universidade estudar medicina (com o desejo de se tornar psiquiatra) e filosofia. “Membro do movimento universitário católico, eu participava ativamente da vida política da universidade”, lembra. “Foi então que ouvi na minha vida perguntas que questionavam a minha fé. Aos 24 anos, eu escolhi me tornar padre. O bispo de Lima, considerando-me muito velho para o seminário, me mandou para a Europa”.

Em Leuven, aprendeu francês, escreveu uma tese sobre Como Freud chegou à noção de conflito psíquico. Depois, se transferiu para Lyon para estudar teologia. “Era um período difícil na Igreja francesa, mas muito rico”, diz, “que me permitiu encontrar Albert Gelin (cujos trabalhos sobre os ‘Pobres de Javé’ orientaram as minhas pesquisas), Gustave Martelet e dominicanos (como Marie-Dominique Chenu, Christian Duquoc… e também aqueles da minha geração, como Claude Geffré). Muitos anos depois, quando eu tomaria a decisão de entrar na Ordem dos Pregadores, um dos meus amigos de então, padre Edward Schillebeeckx, dominicano flamengo, me escreveria uma carta que começava assim: ‘Finalmente!'”.

Viver em solidariedade com os pobres

Enquanto isso, ordenado sacerdote, Gustavo Gutiérrez voltou ao Peru. Nomeado a uma paróquia do bairro pobre de Rimac, em Lima, e capelão dos movimentos cristãos, ele se dedicou ao seu trabalho pastoral, dando aulas também na universidade católica. Mas já havia um problema que o atormentava: como dizer ao pobre que Deus o ama?

Em maio de 1967, dois anos depois do Concílio, do qual participou, ele abordará essa questão diante dos estudantes da Universidade de Montreal, distinguindo pela primeira vez três dimensões da pobreza. A pobreza real de todos os dias: “Ela não é uma fatalidade”, explica, “mas sim uma injustiça”. A pobreza espiritual: “Sinônimo de infância espiritual, consiste em colocar a própria vida nas mãos de Deus”. A pobreza como compromisso: “Ela leva a viver em solidariedade com os pobres, a lutar com eles contra a pobreza, a anunciar o Evangelho a partir deles”.

Para explicar a ideia, ele se concede um pouco mais de tempo, atento a não pular alguma etapa. “No ano seguinte, eu ainda tinha que dar uma conferência em Chimbote, no Peru. Haviam-me pedido para falar sobre a teologia do desenvolvimento. Expliquei que uma teologia da libertação era mais apropriada”. Essa linguagem teológica, que leva em consideração o sofrimento dos pobres, inspiraria os bispos reunidos em Medellín (Colômbia) para a segunda Conferência do Episcopado Latino-americano (Celam).

Nasce a teologia da libertação

Em maio de 1969, Gustavo Gutiérrez foi para o Brasil, que vivia então as horas mais escuras da ditadura militar. Ali encontrou estudantes, militantes da Ação Católica, padres cujo testemunho enriqueceriam a sua reflexão que desembocou na sua obra fundamental: Teologia da Libertação. “Antes do Concílio”, especifica, “João XXIII havia anunciado: a Igreja é e quer ser a Igreja de todos, e particularmente a Igreja dos pobres”. Os padres conciliares, preocupados com o problema da abertura ao mundo moderno, esqueceram-no um pouco. Na América Latina, essa intuição foi retomada. Os pobres começavam a se fazer sentir. “Muitos de nós víamos neles um sinal dos tempos que era preciso perscrutar, como pede a constituição Gaudium et Spes. Por causa da minha idade, da minha presença no Concílio e em Medellín, eu é que fiz um trabalho de teólogo. Mas poderia ter sido outro”.

A libertação da qual Gustavo Gutiérrez fala não é um programa político. Ela se situa em três níveis que se cruzam. O nível econômico: é preciso combater as causas das situações injustas. O nível do ser humano: não basta mudar as estruturas, é preciso mudar o ser humano. O nível mais profundo, teologal: é preciso se libertar do pecado, que é a recusa de amar a Deus e ao próximo.

Quanto à teologia, ela é o meio para fazem com que o compromisso com os pobres seja uma tarefa evangélica de libertação, uma resposta aos desafios que a pobreza coloca diante da linguagem sobre Deus. Essa teologia se revela contagiosa. Nos Estados Unidos, na minoria negra, na África, na Ásia, teologias desses “terceiros mundos” se despertam, impulsionadas por um novo fôlego.

Uma vida pelos pobres

Mas essa teologia também se choca com oposições. As mais violentas vêm dos poderes econômicos, políticos e militares da América Latina, assim como nos EUA. Mas também vêm de católicos que a acusam de fazer referência, ao analisar certos aspectos da pobreza, à teoria da dependência, que usava noções provenientes da análise marxistas.

Na conferência do Celam em Puebla (1979), que confirma a visão de Medellín e fala da “opção preferencial pelos pobres”, manifestam-se resistências também dentro da Igreja latino-americana. “Medellín”, reconhece Gustavo Gutiérrez, “foi uma voz muito profética que provocou compromisso e resistências. Mas quando uma Igreja é capaz de ter entre os seus membros pessoas que dão a sua vida pelos pobres, como Dom Oscar Romero e muitos outros, há algo de importante que acontece nessa Igreja”.

A teologia da libertação também sofreria por causa das posições do Vaticano. Em 1984, ela foi severamente criticada pela Congregação para a Doutrina da Fé, da qual o cardeal Ratzinger era então prefeito. Gustavo Gutiérrez, assim como outros, teria que dar explicações. Em 2004, ao término de um processo de “diálogo” de 20 anos, o mestre da Ordem dos Dominicanos recebeu uma carta em que o cardeal Ratzinger “rende graças ao Altíssimo pela satisfatória conclusão desse caminho de esclarecimento e aprofundamento”.

“Durante aqueles anos, eu podia, mesmo assim, pregar o Evangelho na minha paróquia”, conta Gustavo Gutiérrez, que se dedicava naquela época às suas pesquisas sobre Bartolomeu de Las Casas – “um gênio espiritual”, diz, “que soube ver no índio o pobre segundo o evangelho” –, continuando a sua obra teológica e acompanhando de perto “a nova presença das mulheres, depois dos índios, na cena da história, do pensamento, da que estavam ausentes”.

Teologia como poesia

Hoje, ele reside no convento dos dominicanos de Lima. Divide o seu tempo entre o seu trabalho pastoral, os retiros que prega, os cursos de teologia na Universidade de Notre Dame (Indiana, EUA) e no Studium Dominicano de Lille (França). Mas, incansavelmente, ele continua a sua obra teológica, lendo muito, até mesmo poetas. “A poesia é a melhor linguagem do amor”, confidencia. “Fazer teologia é também escrever uma carta de amor a Deus, à Igreja que eu sirvo e ao povo a que eu pertenço”.

Atualmente, ele está terminando um livro dedicado à opção preferencial pelos pobres. “A teologia da libertação pode até desaparecer”, afirma, “mas, se restar a preferência pelos pobres, nós teremos vencido algo importante, profundamente ligado à Revelação”. Depois, acrescenta, com uma expressão de clara gravidade no rosto: “A pobreza e as suas consequências são sempre o grande desafio do nosso tempo na América Latina e em muitos outros lugares do mundo. Praticar a justiça, trabalhar pela libertação dos seres humanos é falar de Deus. É um ato de evangelização”.

 A reportagem é de Martine De Sauto, publicada no jornal La Croix, 24-03-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto (http://www.ihu.unisinos.br)