O CarismaNotícias › 05/06/2018

Como sermos pão da paz hoje, pergunta frei Mário

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Frei Augusto Luiz Gabriel

São Paulo (SP) – “Santo Antônio o Pão da Paz” foi o tema do 5º dia da Trezena de Santo Antônio no Convento e Santuário São Francisco na capital de São Paulo, nesta terça-feira (5/6). Tema este que rendeu belas e inspiradoras palavras ao celebrante Frei Mário Tagliari. Durante a Celebração Eucarística das 15 horas, o pregador mostrou que está por dentro dos documentos e das novidades, seja em relação à Igreja do Papa Francisco como também da sociedade em geral. Segundo ele, a Igreja no Brasil, animada pela CNBB, há muito tempo já vem chamando a atenção para o tema da paz. “A Campanha da Fraternidade de 2009 já apresentava o tema: ‘A Paz é fruto da Justiça’. Este ano, a temática da Campanha também é voltada para a paz: ‘Fraternidade e superação da violência’. Vemos que a violência é a grande causadora da injustiça que não nos possibilita a paz. Somos todos convidados a superarmos a violência”, pediu o celebrante, que também é guardião do Convento.

Frei Mário começou sua homilia falando sobre a liturgia do dia. Para ele, a leitura da Segunda Carta de São Pedro (3,13-14) parece até que foi escolhida propositalmente para hoje. “Pedro nos diz: ‘O que nós esperamos, de acordo com a sua promessa, são novos céus e uma nova terra, onde habitará a justiça. Caríssimos, vivendo nesta esperança, esforçai-vos para que ele vos encontre numa vida pura e sem mancha e em paz’. São Pedro anuncia que, para esta paz acontecer, é preciso que nós tenhamos a esperança e vivamos na justiça. Sem paz não há justiça. A justiça, sem dúvida nenhuma, é a razão maior e aquilo que realmente vai garantir que haja a paz. Essa paz deve ser buscada a partir de cada um de nós”, ensinou o pregador.

trezena_050618_2Segundo ele, no Evangelho de São Marcos (12:13-17) de hoje, nós vemos os fariseus, saduceus e alguns do ‘partido de Herodes’ que fizeram uma ‘pegadinha’ bem hipócrita – primeiro fazem um elogio: ‘Tu és o mestre da verdade’ como todo hipócrita faz – e depois perguntam a Jesus: “É lícito ou não pagar o imposto a César?”. “Vejamos bem, o povo judeu vivia na escravidão romana, o Império todo Romano chegava a muitas partes do mundo, inclusive na parte do Oriente onde fica Jerusalém. Se Jesus dissesse que não era justo pagar impostos, os soldados do Rei Herodes, que já estavam por lá, iriam prendê-lo. Se ele dissesse que era justo, estaria indo contra o povo que estava sendo massacrado com impostos altos, e que vivia quase num regime de escravidão no tempo do Império Romano”, explicou o frade.

“Porém, Jesus soube sair desta de uma forma bem bonita. Ele perguntou: ‘Trazei-me uma moeda para que eu a veja’. Eles levaram a moeda, e Jesus perguntou: ‘De quem é a figura e a inscrição que está nessa moeda?’. (Mc 12, 15-16).  Era do Imperador César. Jesus então disse: ‘Dai, pois, a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus.’ (Mc 12, 17). Jesus não está comparando Deus com César e nem César com Deus. Ele está dizendo que Deus é o Senhor de nossas vidas e César é o senhor dos exércitos que dominava aquela região. E, com isso, Jesus não estava dizendo que concordava que o povo vivesse sobre o domínio deste Império Romano, causador de muitas justiças. Jesus vem anunciar a paz e a paz é fruto da justiça. E, naquele momento o povo não vivia a justiça. No entanto, Jesus chama a atenção para o nosso modo de viver. A quem seguimos? A César ou a Deus? A quem nos apegamos: aos bens materiais, aos valores deste mundo, dinheiro, fama, riqueza?”, questionou o frade.

E continuou falando que na Audiência Geral, na Praça São Pedro no Vaticano, da última quarta-feira (30/05), o Papa Francisco acolheu 10 jovens das duas Coréias (Coréia do Sul e Coréia do Norte) que dançaram taekwondo. “Ver as duas Coréias juntas representa uma mensagem de paz para toda a humanidade”, declarou o Papa, citado por Frei Mário.

A PAZ É FRUTO DA ORAÇÃO

“Santo Antônio também em uma de suas admoestações assim disse: ‘O azeite é o mais excelente de todos os líquidos; a paz de consciência excede o gozo dos bens temporais’ (Ft 15a). É dele também a frase da Admoestação (5Pn 16a): ‘Busca a paz dentro de ti, em ti mesmo; se a encontrares, terás paz com Deus e com o próximo’. A paz é um movimento e algo que vem de dentro de nós mesmos. Por isso é fruto da oração! É fruto de alguém de espírito humilde que se coloca na presença de Deus, e na presença Dele se propõe e se dispõe a ser instrumento de Paz. A oração de São Francisco de Assis já diz: ‘Senhor fazei-me instrumento de vossa paz’. Tudo isso para dizer que depende de uma atitude fundamental nossa”, destacou.

Fazendo um paralelo com o que o Papa Francisco disse na Carta pelo 52º dia das Comunicações Sociais, afirmou que o Santo Padre convidou todas as pessoas que trabalham com a comunicação social a repensar a grande carga de violência e de ódio que são transmitidas através das mídias. “Se formos pensar um pouquinho veremos que nossos grupos de WhatsApp estão cheios de violência, discriminação e intolerância contra aqueles que pensam diferente e vivem diferentemente de nós”, ressaltou Frei Mário.

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E acrescentou: “Que Santo Antônio nos ajude a buscar a paz interior que é uma atitude de humildade, de serviço e simplicidade. Ele mesmo já dizia: ‘Coisas necessárias a qualquer justo: a paz do coração, a separação dos bens terrenos, o silêncio da boca, o êxtase da contemplação, a lembrança da própria fragilidade’ (Pp 18c). Só seremos homens e mulheres de paz se formos pequenos, simples e humildes. Por isso, Santo Antônio se encantou pelos primeiros frades portugueses vestidos com o hábito de São Francisco, que iam para Marrocos e que ele acolheu no convento ainda quando era cônego agostiniano. Pouco depois, eles (os frades) voltaram dentro de caixões, mortos, martirizados. Santo Antônio se encantou com aquela disponibilidade, com aquele ardor missionário e também quis ser martirizado anunciando a paz”, destacou.

trezena_050618_3Frei Mário também lembrou que, certa vez, os hereges não quiseram ouvir Santo Antônio pregar e então o santo franciscano foi até a beira da praia e pregou aos peixes. “Santo Antônio, como arauto da paz, nos convida a buscarmos a paz dentro de nós mesmos, vencendo os egoísmos, orgulhos e a mania que temos de achar que somos melhores do que os outros. Que ele também nos ajude a vencermos a ganância e o acumulo de bens”.

E, citando a Doutrina Social da Igreja, finalizou: ‘Aquilo que sobra na nossa mesa não nos pertence, é de direito do pobre’.  Dessa forma construiremos a paz, pois assim vamos criando um mundo mais fraterno, justo e com paz. Que Santo Antônio nos inspire a sermos construtores da paz, reconhecendo o outro como irmão. E que ele também nos ajude a cumprir nossa missão de anunciar ao mundo a Paz e o Bem”, finalizou.

A VIOLÊNCIA NO BRASIL TEM IDADE E TEM COR

Ainda em sua homilia Frei Mário informou que exatamente hoje (5/6) foi anunciada, pela internet e jornais, uma pesquisa feita nos últimos anos aqui no Brasil. “Nosso país vive uma situação de homicídios nunca vista há muitos anos. Somente no ano de 2016 – a pesquisa foi realizada entre os anos de 2010 e 2016 – 56 mil jovens entre 16 e 26 anos foram assassinados. E pasmem vocês porque a grande maioria é de negros! Então, a violência no Brasil tem idade e tem cor. Jovens em plena esperança de vida, de futuro, buscando seus direitos são mortos violentamente. Como sermos hoje pão da paz? O Brasil tem fome desta paz e nós, cristãos, também. Santo Antônio quer nos dar esperança de que este pão da paz é possível”, refletiu o frade.

O 6º dia da Trezena de Santo Antônio terá como tema: “Santo Antônio e o Pão da Solidariedade”. A Celebração Eucarística será as 15 horas.

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