Pentecostes no Cenáculo e no Largo Paissandu

Foto: Famílias vítimas do desabamento em Vigília no Largo do Paissandu

Frei Gustavo Medella

Os discípulos e Maria, reunidos no Cenáculo em oração, buscam discernir o caminho da fidelidade e da continuidade ao projeto de Jesus, o Ressuscitado que subiu aos céus. Dezenas de famílias, sem eira nem beira, com pouquíssimas possibilidades de escolha, unidas pela circunstância, tentam viver no prédio federal abandonado – junto com elas, as famílias – no Centro da maior e mais rica cidade do Brasil. Os primeiros têm medo da perseguição, do sentimento de orfandade pela falta do Mestre, da própria incapacidade de levar adiante um legado tão exigente. Os segundos temem o dia de amanhã, a possibilidade insistente de mais uma vez serem expulsos, a insegurança a respeito de seu futuro e de seus filhos.

Em ambos os ambientes, um sinal. No primeiro, fogo! Vem do alto, não queima, mas repousa sobre eles. Ilumina, encoraja, abre novos horizontes, aproxima, torna possível a comunicação e a comunhão. É graça e vida, ação do Espírito Santo. No segundo, fogo! – também. Vem de baixo e do alto, ou melhor, do quinto andar. Queima, destrói, intoxica, expulsa, mata.  Sinaliza o espírito de descaso e desprezo, a teimosa omissão de uma sociedade que se nega a olhar para os seus últimos, preferindo lavar as mãos num sonoro levantar de ombros de quem diz “Este problema não é meu”!

Ao celebrar esta solenidade que encerra o Tempo Pascal, que ligação se pode fazer entre o episódio bíblico narrado nos Atos dos Apóstolos e a triste tragédia que se abateu sobre os pobres habitantes do edifício incendiado no Largo Paissandu?

1) Jesus estava presente em ambas as situações. O mesmo Senhor que garante, em  Mt 18,20, “Onde dois ou mais estiverem reunidos em meu nome, eu estarei no meio deles”, em Mt 25,34ss coloca-se em pessoa na carne dos que padecem carência e privação dos bens básicos à vida, entre eles a moradia: “estive faminto e me destes de comer, estive com sede e me destes de beber, estive nu e me vestistes”. O Deus solidário apresentado por Jesus Cristo é amigo dos pobres e quem deseja segui-lo também deve buscar a proximidade com os pequenos e sofredores.

2) A possibilidade de comunhão se torna possível e presente nos dois episódios. Em Pentecostes, o Espírito de coragem e entendimento permite que, mesmo nas diferenças, homens e mulheres se compreendam, se respeitem e aprendam a trabalhar juntos pelo Reino. A tragédia do Largo Paissandu pode e deve ser um apelo à consciência coletiva, revelando que a noção de que o bem comum e o direito à satisfação das necessidades humanas básicas devem ser dois pilares éticos que unem toda a humanidade para além de qualquer diferença. Oxalá os gestos imediatos de solidariedade, como a doação de alimentos, água, roupas e itens de primeiros socorros sejam sinal para a criação de uma nova consciência mais fraterna e solidária.

3) O espírito da desconfiança e do egoísmo tenta desconstruir a ação do Espírito. O espírito da divisão (dia-bolos), fruto das contradições da vida humana quando esta se faz impermeável à ação Deus, também esteve presente entre aqueles que acompanharam e viveram os episódios do Cenáculo e do Largo Paissandu. No primeiro, a facilidade de comunicação e o entusiasmo que tomou aquela assembleia impulsionada pelo Espírito suscitaram comentários debochados e maldosos entre alguns, que diziam: “Estão todos embriagados de vinho doce” (At2,13). Ainda hoje muitos tentam tirar a força e a credibilidade do Evangelho com este tipo de afirmação moralista e leviana. No caso do Largo Paissandu, infelizmente não foram poucas as vozes a culpabilizar os pobres e os movimentos sociais que lutam por moradia pelo ocorrido. Este é o espírito de quem escolhe não enxergar, e muito menos, tornar-se solidário com a dor do próximo: zero por cento de empatia.

A Solenidade de Pentecostes seja, mais uma vez, chance valorosa para que os cristãos se empenhem em discernir os sinais do Espírito que continua, com todo vigor, a guiar os passos da Igreja. O cuidado maior deve ser o de não atrapalhá-Lo com o excesso de certezas e seguranças meramente humanas.

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