Solenidade de Pentecostes, ano B

Frei Ludovico Garmus

Oração: “Ó Deus, que, pelo mistério da festa de hoje, santificais a vossa Igreja inteira, em todos os povos e nações, derramai por toda a extensão do mundo os dons do Espírito Santo, e realizai agora no coração dos fiéis as maravilhas que operastes no início da pregação do Evangelho”.

1. Primeira leitura: At 2,1-11

Todos ficaram cheios do Espírito Santo e começaram a falar.

João coloca a doação do Espírito Santo no dia da Páscoa, quando Jesus ressuscitado aparece aos apóstolos reunidos no Cenáculo. Lucas coloca-a no dia da festa judaica de Pentecostes. Na origem era uma festa agrícola do início da colheita do trigo, celebrada sete semanas após a festa dos ázimos, ligada à Páscoa. Era uma das três festas de peregrinação. Na festa de Pentecostes o israelita devia comparecer diante de Deus e apresentar os primeiros frutos da colheita do trigo. No II século a.C., Pentecostes passou a comemorar a promulgação da Lei de Moisés no Sinai. A doação do Espírito se dá em meio a um “barulho” e “forte ventania”, que lembram a teofania do Sinai: “trovões, relâmpagos… fortíssimo som de trombetas”, marcando a descida de Deus “em meio ao fogo” (Ex 19,16-19). Rabi Johanan dizia a respeito: “A voz saiu e se repartiu em setenta vozes ou línguas, de modo que todos os povos a entendessem; e cada povo ouviu a voz em sua própria língua”. Lucas conhecia esta tradição: Como a Lei de Moisés era conhecida em todo o mundo, agora também o Evangelho é pregado a todos os povos, citados em nosso texto. A diversidade das línguas nas quais cada um entendia a mensagem do Evangelho é um convite aos apóstolos e discípulos a levarem a mensagem de Jesus a todos os povos e culturas, impulsionados pelo Espírito Santo.

Salmo responsorial: Sl 103 (104)

Enviai o vosso Espírito Senhor
e da terra toda a face renovai.

2. Segunda leitura: 1Cor 12,3b-7.12-13

Fomos batizados num único Espírito,
para formarmos um único corpo.

Paulo fala longamente para a comunidade de Corinto sobre os dons do Espírito Santo (1Cor 11,2-16; 12,1–14,39). Sem estes dons, nada podemos fazer, nem mesmo dizer: “Jesus é o Senhor”. Os dons ou “carismas” são “atividades”, serviços ou manifestações do Espírito “em vista do bem comum”, assim como cada membro presta serviço para o bem do mesmo corpo. Paulo usa a imagem do corpo que tem muitos membros, mas forma uma única unidade. O Espírito nos unifica num só Corpo em Cristo: “judeus ou gregos, escravos ou livres, fomos batizados num único Espírito”. O Espírito Santo distribui seus dons / carismas não para distinguir esta ou aquela pessoa, mas em vista do bem da comunidade. A manifestação do Espírito se dá em todos os membros da comunidade. Não é privilégio do clero, dos religiosos ou de “grupos carismáticos”. A propósito, numa homilia de um autor anônimo do séc. V se diz que todos nós também “falamos em línguas” porque pertencemos à Igreja, Corpo Místico de Cristo, que anuncia o Evangelho em inúmeras línguas, pelo mundo inteiro.

Aclamação

Vinde, Espírito Divino,
e enchei com vossos dons os corações dos fiéis;
e acendei neles o amor como um fogo abrasador!

3. Evangelho: Jo 20,19-23

Assim como o Pai me enviou, também eu vos envio:
Recebei o Espírito Santo!

No domingo passado meditamos que Jesus, antes de subir aos céus, enviou os apóstolos em missão: “Ide por todo o mundo, proclamai o Evangelho a toda criatura”. O evangelista Marcos nos lembrava que os apóstolos partiram em missão; pregavam em toda a parte e o Senhor Jesus “os ajudava, confirmando sua palavra por milagres que a acompanhavam”. Portanto, a Ascensão marca o fim da missão de Cristo aqui na terra e o começo da missão de seus discípulos. Hoje nos é revelado como se dará esta presença de Cristo entre nós. Jesus aparece no meio dos discípulos, saúda-os duas vezes e os tranquiliza com a sua presença, dizendo: “A paz esteja convosco”. Em seguida, se identifica mostrando-lhes as mãos e o lado perfurados. Ele é o mesmo Jesus crucificado, que cumpriu sua missão, a obra de nossa salvação, e pode voltar ao Pai: “Subo para o meu Pai e vosso Pai, meu Deus e vosso Deus” (Jo 20,17). Antes de voltar ao Pai, porém, deixa-nos a tarefa de continuar sua missão: “Como o Pai me enviou também eu vos envio”. Jesus estará para sempre conosco pelo seu Espírito, o Advogado e Consolador, que estará sempre ao lado de seus discípulos: “Recebei o Espírito Santo. A quem perdoardes os pecados, eles lhes serão perdoados”. Pelo dom de sua vida Jesus nos reconciliou com Deus, manifestando o amor misericordioso do Pai. Agora confia aos seus discípulos a missão de manifestar esta mesma misericórdia: “A quem perdoardes os pecados, eles lhes serão perdoados”. Em geral pensamos que só o sacerdote pode perdoar pecados em nome de Deus. No entanto, a reconciliação é uma tarefa de todo cristão: “Perdoai nossas ofensas assim como nós perdoamos”. O poder de “ligar e desligar” é uma tarefa para todos. Se não perdoar a meu irmão, fico ligado, amarrado a ele pela raiva, ódio e desejo de vingança. Quando lhe concedo o perdão, fico livre para amar. Quando lhe peço perdão, restabeleço os laços de amor rompidos. Para este gesto de perdão e reconciliação Deus nos concede o dom do Espírito Santo.

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