Reflexão bíblica e pastoral

O livro do Êxodo

O livro do Êxodo é fruto de muitas reflexões feitas pelo povo de Israel desde o acontecimento de libertação da escravidão do Egito até a redação final. Isto abrange o período que vai, aproximadamente, de 1250 a.c. até 450 a.c. A saída do Egito é contemplada, de geração em geração, como um momento de importância fundamental na história de Israel. Foi a partir deste acontecimento que se deu a formação do povo judeu. Toda a organização sociopolítico-religiosa deste povo vai ser iluminada pelo evento do Êxodo. A reflexão teológica que daí decorre levará Israel à autocompreensão de ser o “povo de Deus”.

Deus se revela como aquele que vê a opressão do seu povo no Egito, ouve o seu clamor, conhece seus sofrimentos e desce para libertá-lo das mãos dos egípcios, fazendo-os subir a uma terra onde corre leite e mel (cf. Ex 3,7-10). O processo conflituoso de libertação está narrado na primeira grande parte do livro do Êxodo. Culmina com o cântico de Moisés e de Miriam (Ex 15,1-21). sendo este o texto indicado pelos cristãos do Caribe para a Semana de Oração pela Unidade Cristã.

O cântico está situado logo após a travessia do Mar Vermelho, interpretada como o ato definitivo de libertação da escravidão. Do acontecimento histórico emerge o sentido teológico, expresso em forma de poema. Inicia-se enfatizando o louvor a Deus (15,1-3). Dele provém a salvação. O povo de Israel percebe que o desígnio de Deus relaciona-se com o ideal da liberdade. Nenhuma força, nem mesmo os carros, o exército e o poder militar bem treinado do Faraó, poderá frustrar a vontade de Deus que quer seu povo em liberdade (vv. 4-5).

A mão de Deus une e liberta

O cântico ressalta a convicção vivenciada por Israel de que a libertação e a salvação provêm de Deus. Os sinais de sua presença atuante são evidentes. Deus não é um expectador passivo, distante e indiferente à situação em que se encontra o povo. Sua mão direita une e liberta, revelando uma postura de defesa e promoção da vida, contra os poderosos deste mundo: “A tua destra, Senhor, esplendorosa de poder, a tua destra, Senhor, esmaga o inimigo (v. 6). Estendeste a tua destra, a terra os tragou” (v. 12).

A mão direita de Deus pode ser compreendida como o seu amor infalível em favor do seu povo. Enquanto a política opressora do Faraó pretendia manter o povo sob o seu total domínio (v. 9), Deus desce para protegê-Io, pois é o Deus da vida. Como criador de todas as coisas, exerce sua soberania e seu domínio sobre o vento e o mar, preservando a vida do seu povo, contra os que querem destruí-Ia (v. 10). A profetisa Miriam, com todas as mulheres, completa o louvor, entoando: “Cantai ao Senhor. Ele se sobre-exaltou. Cavalo e cavaleiro precipitou no mar” (v. 21).

O verdadeiro rosto de Deus revela-se no seu agir libertador: “Quem é como tu entre os deuses, Senhor? Quem é como tu, esplendoroso em santidade, temível em seus feitos, realizador de maravilhas?” (v. 11).

Deus, porém, não prescinde do ser humano. A tarefa de libertação, rumo à terra prometida, exige, da parte do povo, radical disposição de caminhar, de atravessar o deserto enfrentando todo tipo de desafios. É o que testemunha a continuação do livro do Êxodo. Para perseverar, sem desânimo, torna-se fundamental a confiança em Deus que os fez sair da escravidão. A letra do canto-poema não consegue esconder que seu Deus foi experimentado como aquele que “guia com amor” (graça) neste caminho da liberdade e não descansa enquanto não leva seu povo ao destino, o lugar aprazível da presença de Deus (v. 13). Aliás, a comunidade que canta sabe que a saída dos exilados da Babilônia não foi diferente. O Deus cuidador e pastor “guia seu povo mansamente” (Is 40,11), carregando nos seus braços fortes e acolhedores os frágeis, unindo e integrando todos nessa nova comunidade dos libertos. Há, no entanto, aqueles (vv, 14-16) que querem impedir que a marcha dos libertos siga a seu Deus, disposto a estabelecer seu reino da paz (vv, 17-18).

Passagem para uma nova vida

Neste alegre cântico de louvor, cristãos de muitas tradições diferentes reconhecem que Deus é o Salvador de todos nós. O mesmo Deus do Êxodo é o de Jesus e de todos os seus seguidores e seguidoras. Na salvação que ele traz, reconhecemos que ele é nosso Deus e nós somos o seu povo.

Como o apóstolo Paulo lê a história do êxodo dos hebreus como exemplo para a dinâmica da fé em Cristo (1 Cor 10,1-13), alguns Pais da Igreja interpretam a narrativa como uma metáfora para falar da vida espiritual. Agostinho, por exemplo, identificou o inimigo que é jogado ao mar não como os egípcios, mas como os nossos pecados:

“Todos os nossos pecados passados, vejam vocês, que têm nos pressionado como se estivessem atrás de nós, ele afogou e apagou no batismo … Ficamos libertados de tudo isso pelo batismo, como sendo o Mar Vermelho, assim chamado porque foi santificado pelo sangue do Senhor crucificado (Sermão 223 E).

Agostinho traça um paralelo entre a passagem libertadora do povo escravizado pelo Mar Vermelho e a dos cristãos no batismo.

Através do cântico de Miriam e de Moisés, o povo de que foi escravo podia louvar livremente a mão de Deus que une e liberta. A intervenção divina tornou os escravizados em membros libertos do povo de Deus. A graça do batismo estabelece a verdadeira identidade dos cristãos como membros do Corpo de Cristo. Ambas as caminhadas libertadoras fazem nascer uma assembleia de culto e louvor.

A iniciativa de libertação/salvação é de Deus, envolvendo também o empenho humano. Pelo batismo, os cristãos participam do ministério divino da reconciliação. As divisões precisam ser superadas, pois restringem nosso testemunho e nossa missão num mundo necessitado da cura e da salvação que vêm de Deus.