Mãe de Deus

A tradição da Igreja se debruça sobre a história dessa mulher e a venera como mistério de fé. O culto àquela que a fé cristã chama de Nossa Senhora reside e se expressa, fundamentalmente, nos nomes com os quais a Igreja a aclama e cultua: Mãe de Deus, Virgem, Imaculada e Assunta aos Céus. Cada um destes títulos, revelando algo de Maria, tem o que dizer à mulher sobre sua identidade e sua missão.

Proclamar que Maria é Mãe de Deus significa trazer à luz toda a grandeza do mistério da mulher. Mistério de abertura, de fonte e proteção da vida. Em toda a Bíblia, desde o relato da Criação, a mulher está ligada à geração da vida: conhece as condições do seu lento germinar, de suas demoras, do paulatino desabrochar de sua fecundidade. Mãe de Jesus – o Filho de Deus e Deus mesmo – Maria com sua maternidade vive esta aliança com a vida até o seu ponto máximo e coloca a mulher no centro do mistério maior da fé cristã: o mistério da Encarnação.

No ventre da mulher Maria, onde é gerado o homem Jesus, o Deus vivo se encarna, toma carne humana, carne de homem e de mulher. E assim fazendo, consagra para sempre a condição humana como caminho para Deus e para a verdadeira vida e confirma a mulher como guardiã da esperança e da fé na vida, vencendo os sinais da morte e da esterilidade.

Venerar Maria como Virgem é também afirmar algo sobre a própria essência da mulher. A mulher é, fundamentalmente, aquela que Deus fez aberta, como espaço de liberdade para acolher, proteger, nutrir e abrigar o mistério: espaço disponível, virgem, pronto a hospedar todas as possibilidades, todos os horizontes, prestes a ser transpassada pela força do Altíssimo e impregnada pelo Verbo da Vida. Assim sendo, a mulher acena para aquilo que toda criatura humana é chamada a ser.

A virgindade de Maria abre perspectivas novas para a vocação de todo ser humano, chamado a ser tábua de carne disponível para as inscrições do Espírito Santo, espaço irrestrito e ilimitado onde o Espírito de Deus possa fazer maravilhas. Venerar Maria como Imaculada e cheia de graça significa dizer algo de suma importância sobre a mulher, incluindo sua corporeidade. A mulher, que o livro do Gênesis denunciava, em Eva, como causa do pecado original, colocando sobre todo o sexo feminino um fardo difícil de carregar, em Maria é proclamada bem-aventurada, imaculada, sem pecado.

Na pessoa de Maria de Nazaré, Deus fez a plenitude de suas maravilhas. É na carne e na pessoa de uma mulher que a humanidade pode ver, então, sua vocação e seu destino levados a bom termo, a criação chegada à sua meta.
Finalmente, crer e proclamar a Assunção de Maria aos céus em corpo e alma é trazer para a mulher um novo e promissor futuro.

O fato de pertencer ao depósito da fé, a afirmação de que uma mulher participa – integral e plenamente – da glória de Deus vivo, significa resgatar o corpo feminino de toda a humilhação que sobre ela fez pesar a civilização judaico-cristã. A Assunção de Maria restaura e reintegra essa corporeidade feminina no seio do mistério do próprio Deus.

A partir de Maria, a mulher tem a dignidade de sua condição reconhecida e assegurada pelo Criador dessa mesma corporeidade, definitivamente participante da glória do mistério trinitário.

(Texto extraído do Manual da Campanha da Fraternidade de 1990, com o tema “A Fraternidade e a Mulher”)