A Quaresma e a Campanha da Fraternidade

“Convertei-vos e crede no Evangelho”! A Quaresma é um tempo forte de penitência e de mudança de vida, que nos insere sempre mais no mistério de Cristo. Conversão possibilita o retorno da dispersão para a nascente inesgotável da vida: Jesus Cristo Crucificado-ressuscitado. Neste sentido, a Igreja reza: “Dai-nos, no tempo aceitável, um coração penitente, que se converta e acolha o vosso amor paciente”.[1]

A Quaresma nos encaminha para a Páscoa! É o tempo em que somos tocados pela Palavra, cultivamos a oração, o amor a Deus e a solidariedade fraterna. Somos despertados para os sentimentos de Jesus Cristo.

O insistente apelo à penitência e conversão não se apresenta na dinâmica da “tristeza’, mas de uma “sóbria alegria”, alimentada pela esperança. “Vós concedeis, Senhor, aos cristãos esperar com alegria, cada ano, a festa da Páscoa”[2]. O tempo de conversão desperta em nós a alegria. Alegria do reencontro: a salvação! Se, por um lado, a recordação do sofrimento de Jesus com sua morte na cruz produz em nós uma dor, a Ressurreição nos deixa participar da vitória sobre a morte e o pecado. Assim, a Quaresma passa a ser um tempo de alegria, pois nos aproxima de Deus e de nossos irmãos.

Os quarenta dias desse tempo precioso são de graça e de bênção. Iluminados pela Palavra de Deus buscamos uma nova relação com as criaturas, os irmãos e as irmãs, e com Deus. Um caminho sustentado pela oração, pelo jejum e pela esmola. Oração como disponibilidade, entrega e docilidade à vontade do Pai; esmola como partilha de bens e de gestos solidários, de atenção misericordiosa com os pobres e necessitados; jejum como esvaziamento na imitação de Cristo na Cruz.

Na Quaresma a liturgia despe-se dos seus aleluias e de suas glórias, convidando-nos a à sobriedade e ao despojamento do supérfluo. É um tempo de germinação silenciosa e profunda iluminada pela esperança e expectativa. Neste tempo somos convidados a reencontrar o nosso verdadeiro rosto em um esforço de autenticidade e lucidez, na oração e na caridade, para que, modelados à imagem de Cristo, sejamos capazes de uma comunhão mais profunda em seu mistério de morte e ressurreição. Mistério que
não está fora de nós. Ele é o que nós somos e o que somos convidados a ser. A nossa cruz não é outra senão a de Cristo, é o seu amor em nós que a carrega. A nossa verdadeira vida é a vida do Ressuscitado em nós. Se a liturgia nos conduz pelos passos de Cristo é para nos ensinar o caminho que também é nosso. Procuremos, portanto, estar em sintonia com o espírito da liturgia deste tempo e acolher a seiva de vida que ela nos oferece.

A Campanha da Fraternidade nos pede atenção e conversão. Desperta para uma cultura de fraternidade, apontando os princípios de justiça, denunciando ameaças e violações da dignidade e dos direitos, abrindo caminhos de solidariedade. A vida fraterna é a síntese do Evangelho: “Como meu Pai me ama, assim também eu vos amo. Permanecei no meu amor” (Jo 15,9). Ela testemunha a nossa dignidade como verdadeiros filhos e filhas de Deus.

A Campanha acontece no tempo forte da Quaresma. Neste tempo litúrgico a prática da esmola, da oração, do jejum, a conversão e a Campanha da Fraternidade tornam-se oportunidades de experimentar a vida nova capaz de gerar, ao mesmo tempo, a conversão pessoal, comunitária e social. A Campanha da Fraternidade de 2018 é um instrumento à disposição das comunidades cristãs e de todas as pessoas de boa vontade para superar a violência vivendo como irmãos! O cristão no caminho quaresmal, na busca de conversão, estará disposto a ajudar a superar a violência.


[1] Hino de Laudes
[2] Prefácio da Quaresma, n. 1.