Múltiplas formas de violência

O tema da violência, da superação da violência e, por isso, da segurança tornou-se uma das principais realidades a serem discutidas e tem inspirado diversas formas de políticas públicas. Ao longo da década de 1990, por exemplo, cresceu significativamente o acesso aos equipamentos e aos serviços privados de proteção. O recurso a esse modelo se deve, entre outras razões, à constatação do fracasso ou da insuficiência dos meios empregados pelo Estado no enfrentamento e no controle da criminalidade. Todavia, essa aparente proteção também aumenta, colateralmente, o isolamento. Mantém-se à distância não só o potencial inimigo, mas também o amigo.

Esse distanciamento impede o confronto necessário e benéfico com o outro, abrindo portas para o estranhamento e o ódio contra quem pensa ou é diferente. O “outro” converte-se, então, em mais uma ameaça à sensação individual de segurança.

Apesar de possuir menos de 3% da população mundial, nosso país responde por quase 13% dos assassinatos no planeta. Em 2014, o Brasil chegou ao topo do ranking, considerado o número absoluto de homicídios. Foram 59.627 mortes, segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) [1]

É fundamental, portanto compreender a complexidade e as razões de semelhante tragédia humana. Diferentemente das propostas mencionadas acima, a reflexão que aqui se quer fazer toma por eixo a segurança pública como uma política voltada a assegurar e ampliar os direitos dos cidadãos e a garantir o funcionamento das instituições necessárias para que uma sociedade seja efetivamente democrática. Com isso, entende-se que todas as instituições sociais devem estar aplicadas à observância dos deveres e direitos que assistem, de maneira equilibrada e justa, a todos os cidadãos.

O contexto social e econômico tem forçado os países, entre eles o Brasil, a redefinir os papéis atribuídos ao Estado e a rediscutir projetos políticos  e de gestão dos serviços públicos. Entre os maiores desafios contemporâneos no campo da segurança pública, em uma perspectiva de promoção à cidadania, está o de garantir que as políticas públicas implementadas tenham em vista o aumento da solidariedade entre as pessoas, ao invés de enclausurá-las, criando-se empecilhos ou mesmo impedindo relações interpessoais humanizadas.

Ao apresentar dessa forma a questão da segurança pública, entende-se que este não é apenas um problema de polícia, mas diz respeito a todos os brasileiros e brasileiras. Não existe a possibilidade de se encaminhar uma solução sem a ampla e irrestrita participação da sociedade. Mostra-se razoável a suposição de que não se resolve a questão da segurança sem ações claras e determinadas no campo da educação, da saúde, do esporte, da assistência social e da cultura, entre outros possíveis setores que possam tomar mais pleno o exercício da cidadania.

Neste texto, não se compreende a violência apenas pela consideração dos atos violentos – os quais representam apenas sua face mais óbvia e mais fragmentária. Nas seções seguintes, ao invés de perceber a violência reduzida apenas ao exercício direto da força, pretende-se descrever as situações estruturais de geração e perpetuação da violência.

Encontramo-nos em um período da história no qual nos sentimos, às vezes, impotentes na busca de soluções para os problemas propostos. Em tempos que a paz está ameaçada, é preciso observar criticamente a realidade com olhar de quem acredita na superação por meio da fraternidade. A superação da violência se toma, assim, um sinal do amor que Deus nutre pelo ser humano criado para ser irmão e não rival. Como cristãos, somos chamados a construir o Reino da verdade e da graça, da justiça, do amor e da paz, pois somos todos irmãos.


[1] Esses números fazem parte da Nota Técnica do Atlas da Violência, parceria do Ipea com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Os pesquisadores concluíram que, além de uma tragédia social, está em andamento uma tragédia econômica, em razão dos impactos causados no setor público, nas empresas e nas famílias. Disponível em: http://www.ipea.gov.br/portal/index.php?option=com_content&id=27412. Acesso em: 29 de julho de 2017.