Bendito Tomé

Frei Almir Guimarães

Hoje estamos sendo convidados a ir ao encontro  dos apóstolos que estão reunidos em Jerusalém, no Cenáculo. O evangelho fala de uma tarde, no primeiro dia da semana e de outra tarde, oito dias depois. Esses dias serão marcados por manifestações do Senhor Ressuscitado. Podemos bem imaginar que esses pescadores, apesar de tantos sinais de Jesus, estivessem amedrontados. Afinal, seu Mestre tinha morrido! Ei-lo agora passando pelas portas fechadas, isto é, sendo ele e ao mesmo tempo sendo diferente. Os apóstolos se dão conta  que ele está vivo. Há  alegria no ar. O Ressuscitado sopra sobre eles e lhes dá a paz. A paz, a verdadeira paz, nasce do perdão dos pecados. O sopro é do Espírito.

Jesus não precisa forçar as portas. Ele está presente lá onde quer se fazer presente. Está no meio dos seus.

Nesse contexto é que se insere o episódio de Tomé. Ele queria ver para crer, tocar as chagas.  Tomé acontece em nossas vidas  quando aceitamos a palavra dos  discípulos.  Eles haviam afirmado que tinham visto o Senhor.  Quer dizer, visto uma manifestação expressamente desejada pelo  Ressuscitado.   Somos  Tomé, depois da dúvida, quando resolvemos  acreditar na palavra dos discípulos ou apóstolos, de ontem e de hoje, quando fazemos nosso o mais belo de todos o gritos de fé:  “Meu  Senhor e meu  Deus”.

O que se guarda da visita de Jesus ao Cenáculo na noite da ressurreição e oito dias depois? A paz, a fé, a vida, em outras palavras, a felicidade.

Tomás Halík, eclesiástico tcheco, escreveu um livro com o sugestivo título  de “Toque as feridas”. O autor “revira” o texto de  Tomé de cabeça para baixo. A leitura da página que agora transcrevemos poderá servir de meditação  a respeito do episódio em exame:

“Tomé foi um homem disposto a seguir o seu Mestre até o amargo fim. Lembremo-nos de sua reação às palavras de Jesus quando chegou a hora de ir até Lázaro: “Vamos nós também para morrermos com ele”. Ele levou a cruz a sério – e talvez a notícia da Ressurreição tenha lhe parecido um final feliz  fácil demais para  a Paixão de Cristo. Talvez tenha sido este o motivo pelo qual ele se recusou a compartilhar  a alegria  dos outros apóstolos e, por isso, tenha exigido ver as feridas de Jesus. Ele queria ver se a Ressurreição não  esvaziava a cruz. Tão somente então ele poderia dizer o seu  Eu creio.  Talvez  o “Tomé incrédulo”  tenha compreendido  o sentido da Páscoa  de forma mais profunda que os outros.

A incredulidade de Tomé foi mais útil à nossa fé do que a fé dos discípulos crentes, escreveu  o Papa  Gregório Magno  em sua homilia  sobre este texto do Evangelho.

Jesus se aproxima de Tomé e lhe mostra suas feridas. “Veja, o sofrimento  – não importa qual  – não foi simplesmente apagado e esquecido!”  As feridas permanecem.  Mas aquele que “suportou as doenças de todos nós”,  atravessou também  a porta do inferno e da morte, e ele continua   (incompreensivelmente)  aqui entre nós.  Com isso, ele nos mostrou: “O amor tudo suporta”,  “águas torrenciais  não conseguirão apagar o amor, nem os rios  poderão afoga-lo”, “porque o amor é forte como a morte”, até mais forte do que ela.  À luz desse evento, o amor se apresenta como  valor que não podemos relegar  ao domínio do sentimentalismo: o amor uma força  –  a única força capaz de sobreviver á morte e de abrir as portas com suas mãos traspassadas.

A ressurreição não é, portanto, um “final feliz”, mas um convite e um incentivo. Não podemos, nem devemos capitular  diante do fogo do sofrimento, mesmo quando não o consigamos  apagar agora. Quando confrontados com o mal, não podemos ceder-lhe  a última palavra. Não devemos ter medo de “acreditar no amor”, nem mesmo quando, segundo todo os critérios do mundo, ele estiver perdendo. Tenhamos a coragem de responder a “sabedoria do mundo”  com a loucura da cruz.

Talvez  Jesus – ao ressuscitar a fé de Tomé   pelo toque das feridas – quis lhe dizer a mesma coisa que  me revelou a mim no orfanato   em Madras:  lá, onde você toca o sofrimento humano  –  e talvez apenas lá – você reconhece que  Eu estou vivo, que  “Eu sou”. Você me encontra em todos os lugares em que as pessoas sofrem. Não esquiva-se de mim em nenhum desses encontros. Não tenha medo!  Não seja incrédulo. Creia!” (p.18-19).