Esse tempo favorável que se chama Quaresma

Esta página do  Retiro Mensal de fevereiro aponta para março e abril. Queremos consagra-la ao tema da quaresma. Nada mais normal que  os cristãos, nesse tempo, tenham vontade de fazer um grande retiro percorrendo o deserto da quaresma,  contemplando a face transfigurada do Senhor , dirigindo-se  se com a mulher de Samaria ao poço da água viva e deixando que Jesus faça lama com a terra e unte nossos olhos para verem a luz da Páscoa. É tempo de quaresma. É tempo de  revisão de vida. É o tempo  favorável.

Fr. Almir Ribeiro Guimarães, OFM
freialmir@gmail.com

 

Tempo das passagens e travessias

Agora é o tempo favorável,
divino dom da Providência,
para curar o mundo enfermo 
com um remédio, a penitência.

Hino do Ofício das Leituras do tempo quaremal

 

Oração de abertura

Do mais profundo de mim mesmo, clamo a ti, Senhor.
Não podes permitir que me afogue no abismo.
Tu és o Deus do perdão, da graça e da ternura.
Não te cansas de chamar o homem
para um dialogo face a face com teu amor.
Do mais profundo de mim mesmo, clamo a ti, Senhor.
Não suporto mais viver na superfície das coisas
e na mediocridade de existir.
Do mais profundo de mim mesmo  clamo por ti, Senhor.
Dá a luz que clareie meu caminhar e o caminho da Igreja.
Que minhas entranhas se renovem.
Que me seja dada a graça da coragem e do ânimo
porque tu és o Deus da vida  e o Senhor da força.

 

Textos bíblicos

Isaias  58, 9-14

2Coríntios  5, 20 - 6,2

(ler na Bíblia)

 

Paisagens quaresmais

•    “No momento favorável eu te ouvi, e no dia da salvação eu te socorri. É agora o tempo favorável, é agora o dia da salvação” (2Cor 6,2).  Percorramos todas as épocas do mundo e verificaremos que em cada geração o Senhor concedeu o tempo favorável da penitência a todos que a ele quiseram converter-se.  Noé proclamou a penitência, e todos os que os escutaram foram salvos.  Jonas anunciou a ruína dos ninivitas, mas eles fazendo penitência de seus pecados, reconciliaram-se com Deus por suas súplicas e alcançaram a salvação, apesar de não pertencerem ao povo de Deus”  (Clemente I, papa). Estamos no tempo favorável.  Como dizia  Francisco de Assis:  “Até agora nada fizemos. Vamos começar tudo de novo”.

•    Há tempo para tudo.  Inspirados no Eclesiastes aprendemos a relativizar determinadas coisas e a valorizar  tantas outras.   Há tempo para tudo.  Tempo de  nascer e de  morrer.  Tempo de preparar-se para a vida e tempo de  esvaziar as gavetas e despojar-se de tudo para a grande travessia da páscoa com Cristo.  Há o tempo do envolvimento amoroso com o Senhor em nossa juventude,  o tempo da fidelidade e o tempo do desgaste e da infidelidade.  Há o tempo de volta ao primeiro amor, da mudança do coração. Em nossa vida espiritual  há o tempo das doces consolações e  o tempo da secura interior, tempo da aridez e do deserto.  Há o tempo de preparar o presépio do frágil menino e o tempo de colocar imagens e enfeites em caixas de  papelão e  guarda-las no quarto dos fundos ou no sótão de nossas casas. Não conseguimos agarrar o tempo, interromper sua marcha feita com tanta voracidade.  Tudo passa.  Há o tempo do advento e do natal e há o tempo da quaresma e da páscoa.

•    Viver, atravessar o tempo da existência, não simplesmente passar pelo tempo.  A vida não é um longo e sereno rio que corre placidamente, mas uma sucessão de passagens, de travessias que vão se sucedendo. Por vezes  na sofreguidão de viver nem podemos respirar.  Corremos. E esquecemos de pensar, de parar de refletir.  Tem-se a impressão que uma pessoa bem sucedida é aquela que tem sua agenda cheia, acumulação de tarefas e de projetos que vão sendo realizados meio atabalhoadamente.  Há coisas essenciais que precisam ser feitas entre o nascer e o morrer.  Agostinho de  Hipona tem esse pensamento curioso:  “Quando se atinge  uma determinada idade, morre-se à precedente e isto faz da vida humana  como que uma farsa teatral”.   Nada de elementos muito unidos e conjugados, nada de um drama coerente, mas pequenos projetos e relatos existenciais    Na fala de Macbeth de Shakespeare o  “homem seria um pobre ser que se pavoneia e se agita durante o tempo em que está em cena”.

•    O tempo passa rápido. Nas brumas do passado as coisas vão se misturando. O que ocorreu de significativo em nossa história pessoal e familiar nos últimos dez anos?  Quem bateu à nossa porta? O que a vida foi pedindo de nós?  Que êxodo fizemos? Como estamos atravessando o tempo da existência?  Que apelos nos vem do deserto?  O que significa para nós a passagem de Jesus, sua travessia, sua páscoa?   Enzo Bianchi  afirma que o tempo da quaresma  é tempo de busca da verdade de nosso ser.  “A cada ano retorna a quaresma, um  tempo pleno de quarenta dias que os cristãos devem viver todos juntos como um tempo de conversão e de retorno a Deus (...). A conversão,  não é um acontecimento realizado de uma vez por todas. É um dinamismo que deve ser renovado nos diversos momentos da existência,  nas diferentes idades, e sobretudo quando o tempo que passa leva o cristão a se adaptar ao mundanismo, a ser vencido pela fadiga, a perder o sentido e o objetivo de sua vocação e a viver a fé numa espécie de esquizofrenia.  Sim, a quaresma é um tempo para reencontrar a própria verdade e a própria autenticidade, antes mesmo de ser um tempo de penitência. Não é um tempo de se fazer algo de particular de caridade ou de mortificação. É um tempo para redescobrir a verdade do próprio ser.  Jesus afirma que mesmo os hipócritas praticam  a caridade (Mt 6, 1-6; 16-18). Por esse motivo, precisamente trata-se de unificar a própria vida  diante de Deus e ordenar o fim e os meios da vida cristão, sem confundi-los” (E. Biachi, Dar sentido ao tempo, Loyola, p. 34).  Portanto, trata-se de reorganizar-se.

•    “Na escola de nosso Redentor, bem amados, aprendemos que o homem não vive apenas de pão, mas de tudo o que sai da boca de Deus. Convém que, nesses dias da quaresma, o Povo de Deus deseje mais se nutrir da Palavra de Deus, do que do alimento material”  (São Leão Magno). Jogados na existência, lançados na aventura da vida, somos envolvidos por todas as preocupações cotidianas, com este cortejo de pequenas coisas, ou de eventos significativos e portadores de amanhã e outros que obstruem as alamedas que nos levariam à plenitude.  Há esse dia a dia imediato, intransferível: comprar, vender, pagar, curar, olhar, amar, sofrer  ou simplesmente viver.  No coração de tudo aquilo que vai se passando  encontramos  a  Palavra. Não apenas um fonema mas o grito de Alguém que quer chegar ao mais íntimo de nós mesmos e arrancar uma resposta que possa nos levar à plenitude e nos transformar em seres luminosos no meio das trevas deste mundo caótico. O Senhor passa e fala. Oxalá ouvísseis hoje a sua voz e não endureçais o vosso coração.

•    A Quaresma é tempo de ascese. Paul Evdokimov, conhecido autor ortodoxo, nos esclarece a respeito do dinamismo da ascese cristã.  “A ascese cristã nunca foi fim em si mesma; é apenas um meio, um método a serviço da vida, e como tal procurará adaptar-se às novas necessidades.  Outrora, a ascese dos Padres do Deserto impunha jejuns e  privações intensas e extenuantes;  hoje a luta é outra.  O homem não tem necessidade de sofrimento suplementar:  cilícios, correntes de ferro, flagelações correriam o risco de esgotá-lo inutilmente. A mortificação de nossa época consistirá na libertação da necessidade de entorpecentes, pressa, ruídos, estimulantes, drogas, álcool sob todas as formas.  A ascese consistirá sobretudo no repouso imposto a si mesmo, na disciplina da tranquilidade e do silêncio, onde o homem possa  concentrar-se na oração e na contemplação, mesmo em meio as ruídos do mundo, do metrô, entre a multidão, nos cruzamentos de uma cidade. Consistirá sobretudo na capacidade de compreender a presença dos outros, dos amigos, em cada encontro. O jejum, ao contrário da maceração imposta será a renúncia alegre do supérfluo, a sua repartição com os pobres, um equilíbrio espontâneo tranquilo” (Paul Evdokimow).

Quaresma, tempo em que nos alimentamos da Palavra.  Nutrir-se da Palavra de Deus significa confrontar  nosso projeto de vida com o projeto de Alguém que está para além das coisas pequenas que nos dão a ilusão de sermos importantes, projeto de Alguém que deseja que nos lancemos com coragem e confiança na direção de um amanhã que poderá ser radioso se tomarmos a decisão do seguimento. Nutrir-se da Palavra  significa escutar  atentamente a palavra na Liturgia de todos os dia, saborear os salmos, e à luz dessa mesma Palavra questionar todas as propostas que nos são feitas e as mirabolantes soluções para nossos problemas. O homem que tem sede de plenitude pergunta-se, incontáveis vezes, por aquilo que é o desejo do Senhor a seu respeito.  Vive no horizonte da fé.  Faz tal indagação no tempo da juventude, quando seus dias chegam á maturidade, nas horas de ventura e de desventura, e no  entardecer da vida.  A Palavra de Deus incide sobre nossa historia  e nos “engravida”  de Deus.  Fala-se hoje, com razão, da necessidade da Leitura orante da Bíblia em  comunidade.

 

 

Quaresma, tempo de teste

A Quaresma é o tempo do teste para nossa fidelidade na resposta ao plano de Deus; pode acontecer que o tenhamos traído, mutilado ou enterrado, e isso por covardia, interesse, hipocrisia, fraqueza, porque não soubemos vencer as tentações  que hoje se nos oferecem. Toda civilização inclui elementos bons e elementos nocivos, expressão de sua ambiguidade, de sua incapacidade de salvar-nos.  Hoje esses elementos nocivos são a apatia diante das realidades espirituais, seu sufocamento “mórbido” para que não constituam mais problema e seja relegados para os recantos da consciência e da vida; a total absorção no terrestre, nos valores  e bens que nos são oferecidos em quantidade cada vez mais crescente e alienante; o  “eficientismo”, gerado pelo ídolo do produzir-consumir e consumir-produzir, esse círculo vicioso implacável e destruidor de todo valor humano; o egoísmo e o espirito de opressão, a lutar pela própria carreira, que reduz o próximo unicamente a mais um adversário a eliminar, um concorrente a superar, um degrau pelo qual subir” (Missal Dominical da Paulus, p. 148).

 

TEM PIEDADE, SENHOR!

Abre-me as portas do arrependimento, 
tu que dás a vida,
porque para teu templo santo se eleva o meu espírito.
Purifica-me, tu que és o compassivo,
na misericórdia de teu amor.

Nos caminhos da Salvação, dirije-me, Mãe de Deus,
porque com múltiplas faltas, manchei minha alma;
na negligência,  desperdicei minha vida.
Por tuas preces,  Mãe,
livra-me de todas as impurezas

Tem piedade de mim em teu grande amor, Senhor,
na abundância de teus gestos de compaixão
apaga meu  pecado.

Infeliz, diante de meus inúmeros pecados,
tenho receio do dia da prestação de contas.
Confiando, no entanto, no amor de tua misericórdia
dirijo-me a ti como o rei Davi.
Em tua grande misericórdia,  Senhor, tem piedade de mim.

Liturgia Ortodoxa